A piroca do Edmundo e os bastidores do RIP na Rússia

por Alexandre Xavier

Sim, amigos, o RIP testemunhou o Animal fazendo o que faz o mascote do Botafogo – inadvertidamente.

Foi no estádio de São Petersburgo. Depois de um tempão explorando o Zenit Arena após o apito final de Brasil 2×0 Costa Rica, deixamos a arquibancada e entramos no banheiro para um pitstop. O banheiro também é usado pela área de imprensa que não tem cabine de transmissão. Bem, entramos e nos deparamos com dois brasileiros no mictório.

Reconhecemos ambos imediatamente e, claro, imediatamente reclamamos do Tite e foi assim a mijada – falando sobre o jogo sofrido da Seleção. Edmundo, com um olho no peixe e outro no gato, conversou conosco com atenção e simpatia.

Manjamos a rola dele? Ô camarada, não somos manja-rola, não, e nem dava, viu, porque a do Nivaldo Prieto cobria tudo.

Eles precisavam voltar para entrar ao vivo na Fox, nos despedimos – sem dar as mãos -, e segue o jogo. Por respeito aos animais do Animal e do Prieto, obviamente não sacamos o celular para fazer um registro do momento.

Dmitri, o maior motorista de UBER de todos os tempos

O trânsito russo é uma lenda à parte. Apesar do tráfego intenso, os motoristas dirigem como se não houvesse amanhã – porque se você parar para pensar, na verdade não há. Como o UBER por lá é barato e as distâncias são grandes, pegamos vários. Nenhum motora falava inglês (nos comunicávamos via app), com exceção do Dmitri.

Ainda no começo da viagem, o Dmitri pergunta: “Querem ouvir música”? Respondemos “da!” (sim!). Aí ele saca uma guitarra sabe Lênin daonde, pluga num amplificador atrás do banco, sem largar do volante:

– O que vocês querem ouvir? Queen?

Aí virou a mais memorável viagem de UBER de todos os tempos. Veja abaixo. Música ao vivo de ponta a ponta, sempre com Dmitri usando as costas do pulso esquerdo para dirigir. Passamos por um carro de polícia? Passamos. Ninguém ligou, nem Dmitri, nem a polícia.


Ô, Yuri Gagarin

4h da manhã na capital russa, uma claridade que já parecia do meio-dia. Voltávamos para a casa após uma balada estranha com gente bem bonita à beira do rio Moscou. Um grupo de brasileiros, à distância, começa a gritar:

– Ô Lênin, cade você, eu vim aqui só para te ver

Até aí, tranquilo. Um grupo de russos bem vestidos e mais comedidos atravessa a rua. Eles se cruzam. Os brasileiros percebem qual a nacionalidade da outra turma e começam a cantar, no meio da rua, a plenos pulmões, neste ritmo aqui:

– Ôooo Yuri Gagarin

Aí virou festa, amigo. Os russos racharam de rir e aderiram ao coro. Os transeuntes e pessoas que estavam em volta esperando o metrô abrir também caíram na gargalhada. Mais um dos episódios que fizeram os russos se apaixonarem pela Copa. E “Ô Yuri Gagarin” virou um dos hinos da viagem para a gente.

Em tempo: Yuri é deus, depois do camarada Lênin, o cosmonauta é o ícone que mais se vê nas praças e monumentos por todo o país.

Paquera no metrô

O ditador Josef Stalin concebeu as estações de metrô de Moscou e São Petersburgo para serem “palácios do povo”. De fato, são suntuosas e ainda hoje carregam símbolos soviéticos, muitos lustres, esculturas, pinturas, etc. Mas outra característica das estações é que elas são muito profundas.

Isto faz com que a locomoção na escada rolante seja uma viagem à parte. E para passar o tempo, alguns sentam, leem jornal, olham o celular. Já os torcedores, paqueravam. E, bem amigos e amigas, como tem mulher bonita na Rússia. Os homens são, via de regra, uns ogrinhos feiosos, mas as russas são, via de regra, o oposto dos homens.

E na Rússia, como no Brasil, rola um olho-no-olho e até um sorrisinho (dependendo do sucesso na troca de olhares). A cada viagem na escada rolante, passava subindo ou descendo na mão contrária, pelo menos 3 mulheres de outro planeta.

No Brasil viralizou aquele vídeo dos brasileiros escrotos, mas essa imagem não foi a regra na Rússia. Em sua maioria, os encontros foram respeitosos e de mão dupla.

Em uma destas viagens na estação, um mexicano conquistou um coração russo durante a descida da escada rolante e chegou na plataforma já com o celular na mão para trocar whatsapp e Instagram (a Rússia é maluca por Instagram). Ele pegou o trem da esquerda, ela o da direita. Ambos com sorrisos largos, daqueles que só se vê na Copa.

Nós do RIP? Bem, digamos que, no metrô, ficamos só na troca de olhares mesmo.

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América Latina, Menos Argentina

Sabe que o Neymar é garoto-propaganda de uma empresa chinesa de eletrônicos, né? Pois os chineses desta empresa foram com tudo pago para a Rússia ver jogo do Brasil com uma camisa da China escrito Neymar Jr nas costas. Ok, até aí, foda-se.

O legal desta história é o seguinte: brasileiro que traja a amarelinha na Copa foi, é e sempre será exaltado por tudo quanto é gringo – de russos e libaneses a mexicanos e chineses (menos argentinos).

Quando viram um grupo de brasileiros na mesa do lado, os chineses, na base da mímica, nos abduziram para confraternizar e nos dar cerveja de graça.

Acabamos alcoolizados e cantando com eles o clássico “América Latina, Menos Argentina”

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Pós-BRA 2×0 MEX – O bicho pega na volta do estádio

Os mexicanos sabem perder. No ônibus que trouxe a galera do Estádio Cosmos (longe pra caralho!) de volta ao centro da cidade, todos cantávamos – brazucas e mexicanos.

Os russos na rua acenavam para o ônibus, velhos, crianças, casais.

Samara é quente e seca como Cuiabá, amigo. Termômetro na casa dos 34 graus na sombra, ônibus sem ar-condicionado, trânsito ruim.

O trajeto interminável começa a cansar a torcida. Quando os canarinhos começam a entoar “Ô Seu Madruga, Ô Chapolim, Ô Chavez tchau, Chavez tchau-tchau-tchau”, o bicho pega no fundo do busão. Uma mexicana e uma brasileira saem na porrada.

Os poucos russos torcedores no ônibus se assustam, alguns bombados brasileiros querem briga, a cantoria cessa. Como tudo se ajeita? Quando alguém puxa o clássico “América Latina, menos Argentina!”

Perigo na periferia de Samara

4h da manhã em Samara, uma claridade que já parecia do meio-dia. Voltávamos para o albergue trajando a amarelinha após uma balada estranha com gente nem tão bonita.

O albergue era na perifa de Samara, diziam que num lugar perigoso – a ponto de um UBER não topar levar a gente lá. Nada nos aconteceu, a não ser neste dia.

Passando ao lado de um prédio de tijolo bem caidão, vejo um grupinho reunido no escuro, fazendo sabe Yuri Gagarin o quê. Um deles nos vê passando. Digo ao meu amigo para apertar o passo.

Eles foram mais rápidos. Um gordo careca sai do cubículo aos berros “BRAZILIA”, “BRAZILIA”, agarra meu amigo e o começa a girá-lo no ar.

“BRAZILIA RÂSSÍA FINALE!” – Concordamos com um joia de que Brasil e Rússia estariam na final, gritamos “RÂSSÍA” de volta e todos saem do cubículo para ver, pela primeira vez, brasileiros na periferia de Samara às 4h da manhã. Uma senhora sai na janela aos berros – os caras tinham acordado a vizinhança toda. Conseguimos escapar enquanto eles levavam uma bronca que faria até Josef Stalin meter o rabinho entre as pernas.

Estas manifestações super perigosas aconteceram por todo lado. Nesta mesma noite, mais cedo, dois russos que nos conheceram no meio da rua rodaram por quarteirões com a gente para nos comprar uma cerveja. Como os bares estavam fechados, um deles tirou um boné da URSS da cabeça e me deu.

Em Moscou e São Petersburgo, as manifestações foram menos efusivas – normalmente os torcedores eram parados pelos locais para tirar selfies, mas todos foram igualmente hospitaleiros.

Como a torcida brasileira virou organizada

Na Copa não existe ingresso ruim, né, mas rola uma desigualdade social, já que a FIFA separa o estádio em 4 categorias, fora os VIPs. Tínhamos ingresso de categoria 3, que é mais barato e cujo assento é atrás do gol beeem no alto.

O estádio Cosmos, onde o Brasil jogou as oitavas, era mais modesto e com menos monitores enchendo o saco. Entramos um pouco cedo e estávamos ali no corredor de bobeira, tirando foto, quando vimos chegar a bandinha brasileira que anima a torcida. Qual o pulo do gato (ou do canarinho)? Eles entram na area da arquibancada juntos, marchando, tocando e cantando como um bloco de carnaval.

A galera entra em uníssono no estilo aríete, imune ao pobre monitor do setor que não tem como checar o ingresso de cada um. Gol do Brasil. Nos metemos na meiúca do bloco e chegamos no melhor lugar que um ingresso categoria 2 pode comprar.

É a ala que mais se assemelha, em um jogo da Seleção, ao de uma torcida organizada. Ali vimos os dois gols de pertinho e, finalmente, cantamos o jogo todo – só não pudemos sair, né, para comprar água ou cerveja no intervalo. Tinha até bandeirão:

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Maior que Pelé, só Michel Teló

“Nossa, Nossa” ainda toca na balada (a versão em inglês, mas também a original). Aquela do Gusttavo Lima também – foi uma das músicas que embalou a vitória russa na fanfest contra a Espanha, cantada em português por uma banda local:

P.S.:

– Uma amiga russa de Samara mandou mensagem reclamando que ING x SUE na cidade foi um saco: “bando de torcedores sem graça”

– “No jogo contra o Brasil foi a 1ª vez que vimos o estádio pau-a-pau, nos jogos anteriores só se ouvia a torcida do México”, confessou um mexicano na saída da Cosmos Arena

– Fomos atrás de ingresso para Brasil x Sérvia no estádio do Spartak. Nós e centenas de outros torcedores. Resultado: voltamos pro centro para ver o jogo num bar (as poucas pessoas que vendiam ingresso estavam pedindo US$ 800! Ma nem pra ver o Brasil de Pelé, amigo)

– A impressão que sempre deu á é que a Argentina tem torcida e o Brasil tem turista. Mas as coisas não são tão gourmets assim para o nosso lado, vimos uns manos da Gaviões da Fiel, uma galera do interior do Piauí que tava viajando na raça, um doido de Pelotas que foi pra lá de fusca, muitos torcedores do Guarani, do Fortaleza, da Ferroviária, do Santa Cruz…

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Quase ninguém fala inglês na Rússia. O app do Google Translate (ou similar) é item essencial. Conseguimos até pedir pizza com o tradutor de voz (graças também à paciência da atendente no telefone)

– Se você for um dia para a Rússia, baixe um app para aprender o alfabeto cirílico. Não é difícil e vai ser muito útil na viagem

– No trem apertado, calorento e bem cheio do trajeto Moscou-Samara, após ter de aguentar os brazucas por 16 horas, achei que a senhora russa que dormia abaixo de mim ia xingar. Quando desci do beliche pronto para desembarcar, ela falou algo, pela 1ª vez na viagem. Peguei o tradutor e liguei perto da boca dela. Ela abriu um sorriso de dente de ouro e repetiu “I wish you all the best”.

Como disse um torcedor da Tanzânia (!!) que encontramos na Praça Vermelha, “são 4 semanas que duram para sempre”. A Copa do Mundo é a melhor invenção do homem.

A FIFA quer implodí-la, mas resistiremos

#RIPnaCopa

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