Val: itaquerense, vascaíno e apaixonado pelo Ferrolho

Por Joyce Pais*, especial para o RIP Futebol Clube

“Meu nome é Valfredo Santos, se falar que tem outro é chute, é porque tão chutando, é mentira.” Val é daqueles tipos que se fazem perceber no meio de todos, que se destaca. Baiano de Alagoinhas e carioca de coração, entre uma frase e outra, com uma agilidade que impressiona, enquadra a repórter que vos fala pra mais um clique, “junta, junta, junta… já foi”.

Ao se aproximar de um cantinho com uma lona no chão e um punhado de fotos distribuídas em pequenas pilhas, Val mostra, animado, um raro registro do futebol de várzea itaquerense. Para os amigos e conhecidos, cada foto sua sai por R$4; para os outros, o preço fica entre R$7 e 9, depende de quem emprestou a sua aura à fotografia. “Esse cara é tão bonito que a turma toda quis comprar foto dele”, diz, apontando pra um veterano do time Falcão do Morro.

Val foi para a Cidade Maravilhosa quando tinha apenas um ano de idade. Seu pai, que se dividia entre o ofício de barbeiro e servente de obra, levava a família para onde tinha trabalho. No entanto, Val gostava mesmo é do campo, de sítio, mas acaba voltando sempre para a cidade. Em 1966, se mudou para Vila Formosa e, um ano depois, para Itaquera, onde morava quando o conheci em 2011.

Val tem duas paixões, elas se chamam Vasco e Ferrolho. Relembra com saudosismo a primeira vez que viu o Gigante da Colina entrar em campo, “foi na Bahia, estava na arquibancada e quando vejo aquela cruz, quase não aguento de tanta emoção”, se referindo ao time carioca.

Fundado dia 7 de maio de 1974 por um grupo de amigos que trabalhavam num ferro velho, o Ferrolho é um dos poucos times de várzea em Itaquera que resistiram ao tempo. De semelhança com o time carioca tem as cores – branco, preto e vermelho. Campeão da Zona Leste, das Copas de Itaquera, São Miguel e Vila Maria, o Ferrolho utilizou o campo da empresa NIFE até 1976. Sem campo, passou a jogar no dos adversários e, em 1997, se viram obrigados a desapropriar o terreno particular que usavam para os jogos, vendido para uma construtora.

Porém, depois de trilhar um caminho com tantas conquistas, só faltava um troféu na estante do Ferrolho: o do time feminino. Val montou uma equipe, que sob seu comando fez muito marmanjo entendido de futebol deixar seus preconceitos em casa para assistir a suas meninas jogarem pelos campos de várzea da Zona Leste. Convidado pelo Dinho, presidente do time, e a diretoria, composta por doze integrantes, acharam por bem que ele deveria ser o técnico. O escrete era composto por meninas de 14 a 20 anos. Elisandra, filha de Val que na época tinha 14 anos, “era boleira e uma das melhores do time”, conta, orgulhoso. No primeiro campeonato que disputaram, foram campeões ganhando do time da Cohab II que os tinha vencido na fase classificatória por 6-0, dando o troco na final, com o resultado de 3-2 para o Ferrolho. “Que bela forma de ser campeão, não?”

Para complementar sua renda e a ajudar na criação dos netos que moram com ele, Rafael, que na época dessa conversa tinha quatorze anos e Gabriela, seis, Val atuava como fotógrafo oficial do jornal de bairro Fato Paulista. Sua primeira câmera foi uma Canon A-1 que comprou na Rua Conselheiro Crispiniano. Pagou em quatro prestações e junto se foi o adiantamento de suas férias. Na época, trabalhava na Reuters Agência de Notícias, onde ficou por exatos vinte e nove anos e dez meses. Fazia de tudo, “era um polivalente”.

Apesar de ter vivido o processo avassalador de informatização dos veículos de mídia, Val não gosta de computador. Culpa a máquina por sua demissão, que o impediu de completar trinta anos na empresa. “Da turma toda eu era o menos culto, por isso fui demitido”, opina. Em fevereiro de 1987, um acidente que estampou o obituário dos jornais mudou a sua vida. Oscar Sabetta, “um homi que falava inglês demais” era um fotógrafo argentino radicado nos Estados Unidos. Editor da agência, ele precisava enviar alguém para cobrir um trágico acidente de trem ocorrido em Itaquera. A pessoa mais acessível naquele momento era o morador da Zona Leste e na época iniciante na fotografia, Valfredo Santos.

Considerado o pior acidente ferroviário do sistema de subúrbios, a colisão de dois trens da CBTU a 300 metros da estação de Itaquera deixou 58 mortos e 140 feridos. “Quando cheguei lá pensei: misericórdia, se eu aguentar isso, nada mais me abala”. Val nunca mais esqueceu a cena digna de um filme gore de baixo orçamento. “Quando cheguei lá os seguranças estavam com um saquinho na mão carregando os pedaços, restos de gente. Quem ainda estava vivo, segurava o bucho na mão pedindo para os guardas atirarem pelo amor de Deus, matarem eles, já não aguentavam mais tanta dor.”

Quando conversamos, Val já tinha dez netos, sete meninos e três meninas. Segundo ele, seus rebentos “começaram a fazer filho adoidado”. Ao falar de um neto adolescente que só “quer saber de computador”, indaga em tom de preocupação sincera: “desse jeito, como é que vou formar meu time do Vasco de neto?”. Conta que sempre quis juntar onze moleques de netos para fazer um time do Vasco, “os paulistas que me desculpem, mas sempre gostei mais do futebol carioca, os caras podem tomar de 10 a 0, mas estão tocando, meu jogador favorito é o Ronaldinho Gaúcho, aquele ali, quando dá dois toques na bola, dois dribles, já vale o ingresso”.

Para quem, àquela altura, não podia prever o amargo 7-1, Val já dizia categoricamente ficar “triste pelos jovens que sonham em ver o Brasil campeão, mas infelizmente não vão ver, é triste, muito triste”. A última Copa do Mundo que assistiu foi a de 1994. “Minhas filhas lá em casa só faltavam morrer com o Bebeto e o Romário, quando faziam gol eu pensava que elas iam ter um troço, meu Deus”. Festejados e mais conhecidos do que Presidente da República na casa do Val, a dupla de ouro do tetra era garantia de brilho nos olhos, “mas também, não é pra menos, elas viam eles fazendo aquelas coisas lindas que só eles sabiam”, comenta saudoso.

“Menina, para finalizar, coloque aí na sua coluna, que apesar da rivalidade entre Rio e São Paulo, Zico foi melhor que o Sócrates, um era goleador, e outro, futebol arte. Ah, outra coisa importante: eu gosto do Maradona, mas igual o Pelé, ah… igual a esse está para nascer, não existe e nunca vai existir”.
Val, outro igual a você está para nascer.

Joyce Pais é colaboradora especial do RIP Futebol Clube

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