De que futebol lembraremos no futuro?

De onde buscaremos referência no futuro? Antes de tudo, é bom começar explicando que o texto abaixo não é apenas saudosismo, para acalmar os mais exaltados. Podem guardar as pedras.

Todos sabem que passamos por um momento tenebroso no futebol. E o futuro? Que reserva? Uma dúvida surge: se não temos onde nos amparar agora, de onde as próximas gerações hão de tirar suas referências?

Falta-nos tudo: craques, ídolos, identificação, paixão, vontade, tesão. Estamos na era do futebol plastificado, artificial – puro consumo de algo descartável.

Todo esse processo aconteceu gradativamente, e muito pouco – ou quase nada – foi feito para evitar que chegássemos a esse ponto. Ninguém aqui vive na idade da pedra: todos sabemos que essa “evolução” era algo inevitável. Porém, ninguém imaginava que transcorreria de modo tão rápido e cruel.

Se quando começamos a gostar de futebol dava gosto olhar para o passado, em um futuro próximo fazer isso não vai ser exatamente algo legal. Imaginemos a cena: Luizão no início da década de 90 falando que se inspirava em Careca, ou Serginho Chulapa. Trinta anos depois, Otávio Rezende de Campos Silva, um winger do Manchester City diz que se inspirou na genialidade e estilo de Gareth Bale para encantar os fãs. Difícil imaginar esse cenário?Pois bem, o 7 a 1 era um sonho distante no começo do século também. Virou mercadoria e piada.

Dentro de campo, praticamente não temos referência. Fora dele, menos ainda.

Esqueça Léo Batista e os gols do Fantástico. Esqueça o finado Show do Esporte. Ainda temos alguns exemplos no rádio que valem a pena ser ouvidos. Já na televisão vemos um bando de calculadoras humanas, cabeças de planilha que só consegum falar de números elevados ao patamar de semideuses. Isso para não citar a turma que aprendeu futebol jogando vídeogame e transforma qualquer mesa-redonda em verdadeira reunião de condomínio. Sobre a internet, bom, é melhor nem começar a falar. Até porque o menino futebol, que dizem estar respirando, a cada dia toma uma porrada nova e desimpedida a cada gracinha.

Vale lembrar também as arquibancadas. Conseguimos ver o estádio repleto de bandeiras, a festa e o canto das torcidas. No entanto, o torcedor-consumidor pouco faz diferença no estádio. Imagine só como será daqui 20 anos. Provavelmente ninguém sairá de casa se o estádio não possuir wi-fi liberado. Não dá pra imaginar que nossos filhos possam se sentir empolgados ao saber que pessoas preferiam tirar selfies, aplaudir renda e jogar Candy Crush a assistir aos jogos. Tudo bem que a qualidade do futebol é duvidosa, mas por favor, não se trata de um evento. É CULTO.

Difícil enxergar um horizonte. Chega a ser constrangedor saber que vivenciamos coisas boas, e que nossos filhos e netos talvez não consigam ver tanta coisa boa assim enquanto crescem. Talvez, pior do que tudo isso, seja saber que hoje a busca de informações é algo muito mais fácil do que vamos lá, quinze ou vinte anos atrás. Mesmo que naquela época, ainda craques e alguns deuses desfilavam pelos gramados, todos ficávamos curiosos em saber os feitos de tanta gente boa que ouvimos falar desde que nascemos. Hoje temos a internet, que mostra desde os gols de ontem até o primeiro gol da história do futebol.

Já que não temos onde nos apoiar atualmente, relembrar o que já tivemos de bom pode ser uma saída para amenizar a dor. Não que saudosismo resolva alguma coisa. Não resolve. Mas não é porque estamos na corda-bamba que vamos segurar em qualquer jacaré achando ser tronco.

Enquanto não conseguimos visualizar melhorias, acendemos velas e rezamos para que um Messias apareça. Na verdade nem precisa ser Messias, podem ser até quatro cavaleiros do Apocalipse. O que importa é a mudança do cenário.

Segue o jogo.

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