Lugar de mulher é no campo, sim!

No começo dos anos 90, o Brasil parece ter “descoberto” tardiamente o futebol feminino.

Mais que uma história de dificuldades, por trás disso está um passado cruel na relação esporte e mulher no país do 7×1.

A CBF convocou “oficialmente” a Seleção Feminina em 1988. A modalidade se resumia a poucos times como Radar, do Rio de Janeiro e Saad, de São Paulo.

Mas por que só em 1988?

Existiu, neste país de machismo horripilante, um Decreto-Lei de 1941, que durou até 1981 que proibia a prática de futebol. Enquanto o masculino se firmava rumo ao profissionalismo, as mulheres eram totalmente PROIBIDAS de atuar neste esporte.

O Conselho Nacional de Desportes de 1965 cravou uma deliberação ainda algo pior: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol”.

Por essas e outras, as histórias de Martas e afins foram repletas de dores e complicações. Para completar, após a quebra da ridícula proibição nos anos 80, veio o obstáculo mais tradicional de nossa mídia esportiva, ou do povo em geral, as coberturas e estrelas criadas a base da Testosterona.

Era a fase de jogadores bonitinhas, que ganhavam espaço, mas não tiravam o estigma de uma luta centenária (há registros de futebol feminino no país entre 1916, 1917).

Como um turbilhão, apareceram Ronaldinhas, Milene Domingues, Susana Werner, Fabia Tafarel, que não era jogadora, mas ao sair na Playboy vinha com uma manchete clássica da loucura masculina: “A Prima que Tafarel não agarrou!”. Algumas chegaram a jogar bola, outras eram apenas piada de mau gosto.

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Renê Simões, ex-técnico da seleção, foi obrigado a convocar a meia-atacante Milene Domingues, ex-mulher de Ronaldo, pivô da saída de Paulo Gonçalves, seu antecessor no cargo. Teve até jabá pra jogar!

Era o prato cheio inundar o imaginário do homem-babaca que peidava no sofá enquanto bebia uma Malt 90 e zapeva entre banheira do Gugu, barriga do Faustão e quem sabe pegava também um bom Vitória x Palmeiras.

Os resultados midiáticos começaram a surtir efeito. Em 1995, 72 mil pessoas apoiaram o Brasil na vitória sobre a Argentina no majestoso Parque do Sabiá, em Uberlândia.

Virou a coqueluche do momento, a seleção chegou a sua primeira Olimpíada em Atlanta e quase beliscou uma medalha.

Mas, diferente do imaginário criado pelo homem médio, quem jogava naquela seleção eram atletas. Seres humanos. É difícil entender? Gente que lutou para o fortalecimento no esporte, em uma época que não existia apoio algum. Como era bom ver a Fanta na zaga. O verdadeiro quadrado mágico do futebol brasileiro: Pretinha, Formiga, Michael Jackson e Sissi. Que isso, deu até um arrepio de lembrar aqui.

Aqueles jogos que terminavam 8 a 0 pra gente em cima da Argentina. Aliás, Formiga participou de 5 olimpíadas e conseguiu 2 medalhas de prata, deixando no chinelo muito marmanjo.

Já a outra baiana, Sisleide do Amor Lima, mais conhecida como Sissi, é um caso a parte na história do futebol brasileiro. Era artilheira, jogava como ninguém, era o 10 que falta em qualquer equipe. Ficou para ela o esquecimento, em relação a outra gênia da bola Marta, que veio a seguir.

Mas essa seleção marcou época e respondeu com dignidade o besteirol da mulher frágil, ou apenas boazuda, ou aceleradora de hormônios masculinos. Um tapa na cara da infantilidade machista.

Ainda continua essa síndrome em qualquer modalidade esportiva. Dificilmente as mulheres são retratadas apenas por suas qualidades esportivas, sempre tem uma escapada para o viés da beleza. As piadinhas não têm graça. Não que mulher não possa ser bonita ou desejada, mas isso não faz a mínima diferença quando se trata de esporte.

O futebol feminino continua driblando o preconceito e busca um lugar ao sol no país que não respeitou negros, expulsou pobres e ainda soluça na cama por seus erros e soberbas.

Enquanto isso, nas próximas Olimpíadas, novamente os holofotes estarão apontados para a Seleção Feminina. Sempre favorita a uma medalha. Pena que essa atenção só aconteça de 4 em 4 anos.

O passado é triste, mas o futuro é nosso.

Para encerrar, uma carta de um cidadão para o Getúlio Vargas, em 25/04/1940/

Venho solicitar a clarividente atenção de V. Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. Refiro-me, Sr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraíndo-as para que se transformarem em jogadoras de futebol sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe… Ao que dizem os jornais, no Rio, já estão formados, nada menos de dez quadros femininos. Em S. Paulo e Belo Horizonte também já estão constituindo-se outros. E, neste crescimento, dentro de um ano, é provável que, em todo o Brasil, estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes.

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