Só quem é ídolo vira 10 no botão

Quando comecei a jogar botão, aquilo foi um mundo que se abriu para mim. O futebol que eu via pela televisão, os craques e lances inesquecíveis, se desdobrou, reinterpretado por mim, no meio da sala de casa.

Porque o botão é isso também: jogo, teatro e imaginação.

A 1a coisa era escalar o escrete principal: colocava os botões no tablado verde, um por um, e testava a velocidade, a interação com a paleta, o trato com o dadinho ou o disco e o efeito que colocavam na bola.

Os efeitos, talvez só eu visse.

Cada botão era feito nas cores da camisa de um time, ou apresentava uma coloração toda própria, sem relação com os times de verdade. O conjunto final, os melhores, eram invariavelmente multicoloridos.

Jogando contra meu primo, cada botão tinha uma cor diferente, cada um representava um craque único e inigualável, que passou pela minha rigorosa peneira. Memorizar quem era quem nas partidas era a parte mais fácil: em meio a todas aqueles botões coloridos, nunca me confundi, ou vi alguém confundir seus craques com os jogadores do time adversário.

Cada jogador em campo tinha um nome próprio e era nossa própria seleção de todos os tempos agora. A minha tinha: Dida, Zé Maria, Junior Baiano, Gamarra, Athirson, Zico, Meleca, Flores, Pet, Romário e Edmundo.

Desses, só o Flores e o Meleca não eram ninguém de verdade. Mas eram craque inigualáveis: Flores um matador nato, exímio nas longas distâncias. Meleca o termômetro do meio campo, e meu cobrador de faltas.

A glória era jogar com meu pai. Seus jogadores ampliavam minha cultura futebolística: Adílio, Andrade, Lico. E ele narrava cada lance, trazendo de volta narradores antigos, talvez.

“Tá no barbaaaaante”, dizia em cada gol.

Ele costumava ganhar. Seus tempos de criança, praticando um jogo de botão ainda mais remoto, praticado com tampas de relógio e afins, inscrevera nele uma habilidade incomum. E ele se aproveitava dela mesmo com meus botões industriais.

Vários são os jogadores hoje que não tem a dimensão do que representam pra uma criança, para a torcida. Quem pensa ser o Michel Bastos num jogo de bola? Ou chama um botão com esse nome?

Paulo Henrique Ganso na bola… bateu… pra fora. Peraí, Ganso? Podendo escolher livre quem escolheria o Ganso? Ou o Ricardo Goulart, o Everton Ribeiro, o Renato Augusto, o Jadson, o Pato?

E ser aquele que é o escolhido, dentre todos, para ser o camisa dez de uma seleção de botão? Não dá troféu mas é um singelo e grande título que nenhum jogador percebe mais, no meio de tanta cifra.

Não sei como anda hoje a saúde do meu saudoso botão.
Não jogo mais, talvez esteja esperando meu filho nascer.
Será que hoje em dia só se joga Fifa?

Espero que esteja bem, que tenha praticantes apaixonados, e que espere por mim quando minha hora voltar.

Os botões coloridos ainda tenho, descansando num potinho na estante de casa.

Lembro-me dos nomes de quase todos eles.

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Um comentário sobre “Só quem é ídolo vira 10 no botão

  1. Muito bom o texto!!! Também joguei muito futebol de botão na infância e acabei parando. Com o nascimento do meu filho no ano passado, comprei o campo e resgatei da casa da minha mãe os meus times (o único brinquedo que mantive guardado)…
    Recomecei a jogar (e apanhar) com um amigo. Meu SPFC não tem Ganso, mas Raí envergando a 10, claro!

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