Um brasileiro vivo

Doutor para muitos, Magrão para os mais próximos – mas, sobretudo, brasileiro. No sangue e no sobrenome. Não por acaso. Durante toda minha infância em Ribeirão Preto ouvi falar sobre as histórias incríveis de Magrão, fossem elas sobre suas bebedeiras ou a fase gigantesca no Botafogo. Mas as que mais me tiravam do chão vinham do meu pai, seu Anésio, meu grande amigo.

Ele havia estudado com o Magrão no Marista de Ribeirão Preto e contava sobre como era marcar aquele rapaz gigante e magro no campo atrás do colégio. Também enaltecia que o Doutor sobrava tanto na escola que dava aula particular para outros alunos. Um tempero do que começava e continuaria por toda vida.

O que Sócrates nos deixou vai além do futebol. Transcende análises táticas, estratégicas, filosóficas ou de qualquer natureza. Deu um calcanhar no senso comum, chapelou as convenções e trilhou, do seu jeito, o atalho para a felicidade.

Como um autêntico Doutor, ensinou-nos a fazer política. O tempo todo. Tudo o que não aprendemos e praticamos nos dias de hoje. Fazer política vai muito além de ter opinião. É uma ATITUDE, acima de tudo – que começa, principalmente, em não depreciar o oposto. Trata-se de enxergar o contraditório como algo enriquecedor, ao contrário de encará-lo como um adversário a ser batido.

Lembro quando o Doutor voltou ao Botafogo para encerrar sua carreira e o encontrei na rua. Meu pai foi logo me apresentar. Eu amava futebol. Ele era do meu time. Time do meu bairro. Do meu país. Nada mais pessoal, próprio, parte de mim. Mas não quis. Fiquei com medo de tamanha envergadura.

Anos mais tarde, tive a sorte de reencontrá-lo. Nos bares de Ribeirão Preto, nos melhores torresmos do Empório Brasília – bar de comercialinos – mas que abraçava o Doutor como ninguém. Existe uma placa para ele até hoje por lá. Existia já em vida. Também em seu cinema, o primeiro no Brasil feito em cima de uma igreja evangélica. O caminho inverso em uma época que todas as salas se convertiam em templos religiosos. Isso vai além de montar um espaço cultural. Era provocação. Era política.

No fim de tudo, veio a triste notícia da sua doença e posteriormente a morte, mas apenas do corpo fatigado. Seu pensamento vive denso e forte a pairar sobre toda e qualquer aura de mediocridade.

Estive em seu enterro. Dei o último carinho para o herói impossível. O mais Brasileiro que poderia existir.

A última reza de seus amigos em torno do caixão foi com uma das mais belas canções da música brasileira. Uma das favoritas de Sócrates. Era “Cantar”, de Godofredo Guedes e imortalizada na voz do seu filho, Beto Guedes.

Era demais para mim. A voz e o jeito frágil de Beto Guedes prontamente vieram à minha cabeça.

O coro de seus amigos tomou conta daquela tarde quente em Ribeirão Preto.
Senti, num delicado levitar, o impossível. Era a voz de um povo a cantar. Um Brasil vivo e mais perto do que nunca.

“Se numa noite eu viesse ao clarão do luar
Cantando e aos compassos de uma canção
Te acordar
Talvez com saudade cantasses também
Relembrando aventuras passadas
Ou um passado feliz com alguém

Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso, ou uma outra ventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora saudade que mora no meu coração.”

 

Por Ricardo Morais, com Rodolfo Araújo

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