A menina da Vila

Naquela década de Guga, Marcelo Passos e Giovanni Messias, acompanhava a Vila apenas pela televisão. Não era meu time, mas causava certa diversão assistir aos jogos daquele gramado enlameado. A aventura soava maior por conta do alçapão e, claro, da torcida capaz de pressionar os adversários com a força de uma arrebentação. Estes clubes do mar contam com as forças de Netuno para empurrar os oponentes contra a própria meta.

Sou tricolor, um alvinegro com listras vermelhas e, por consequência, apaixonadas. O rubro exagera, colore, tempera, envergonha-se, brada, escorre pelas artérias, qualifica o amor.

Era sempre difícil para o meu time disputar partidas no caldeirão famoso pelos mágicos pés que serão eternos donos daquele palco. Dispenso citar nomes aqui. Não havia cadeiras, vidros, camarotes: era um retângulo autêntico, suburbano, com perfume de maresia, salgado em excesso para causar a hipertensão necessária ao banco de reservas dos visitantes.

Embora me preocupasse com os rivais da capital, o Peixe sempre foi a pulga atrás da minha orelha. Não sabia direito o porquê, já que era o time do coração do meu avô Faustino, um Don Juan de olhos azuis a quem eu seria incapaz de questionar. Amava e odiava com o mesmo rubor um clube tido como a segunda equipe de muitos torcedores. Não era o meu caso.

Jogar ali, mesmo para o esquadrão de Raí, Palhinha e Muller, era difícil – ao contrário das partidas no Morumbi que não causavam rugas em fanáticos como eu. Em uma década tão prolífica para o São Paulo, o litoral tinha dono. Se meu clube era um santo, todos eles eram o Alvinegro.

Acompanhei, com certa distância, o drama de Narciso, o espetacular jogo contra o Fluminense no Pacaembu, as artimanhas de Paulinho McLaren, as peripécias de Kobayashi, o calção estrelado da Conmebol até chegar em 2002, quando nossos craques de condomínio foram trucidados pelos garotos de Leão. Justo. O Brasil acostumou-se a ser santista naquele ano e em 2004, para chegar ao ápice da molecagem com o injustiçado inspetor Dorival e, mais tarde, conquistar a América com Muricy, inquestionável são-paulino.

Mas de onde viria tanta atenção a um time que não era meu e que, de certa forma, aprendi a repelir principalmente com o gradativo desbotar do Tricolor?

A menina da Vila pisou naquele gramado, levada pelo pai – trabalhador do porto -, ainda pequena. Filha do tetra, espelho de sorte, gravou as pegadas arianas no solo consagrado por dribles, chapéus, arranques e conquistas. Imagino seu deslumbre inconsciente em meio àquela construção estranha ao vislumbrar o céu azul como teto firme sobre as arquibancadas vazias. O progenitor, de bigode grosso e fala rústica, bem que tentou fazer emergir uma sereia – em vão. Diz ela que não gosta de futebol. Seu negócio é a moda – e suas cores preferidas são preto, branco e cinza. Não à toa.

Talvez eu a tenha visto em um daqueles jogos enlameados de Caíco e outros personagens tragicômicos do Santos fim-de-século-e-carreira. Ali, escondida num canto qualquer, mal sabia que, anos depois, meus pensamentos seriam seus.

Combalido de tanto apanhar de Ricardo Oliveira, Gabriel, Lucas Lima e colegas, seguia sem entender a estranha magia que subia a serra em um eletromagnetismo de soturno mistério.

Até que, um dia, meus olhos a encontraram. Seu cabelo escuro, ladeado por mechas quase brancas, saltaram num ofuscar imenso em minha direção. Meu rosto, vermelho e em uma temperatura que já não experimentava há algum tempo, não parava de apontar para aquele corpo fugidio, liso, esguio. Corpo de menina da Vila.

Nunca pensei em descer a serra tantas vezes para dar-lhe livros, beijos, carinhos, fazer juras, dividir sanduíches nos nada espartanos quiosques da orla, escrever linhas, livros, poemas, dar-lhe cinemas, mundos, caronas, primeiras e últimas vezes. Cada curva em declive era um frio a subir pela espinha; um quilômetro a menos na direção do sentido. Da vida.

A menina da Vila é de guerra, ginasta, do roller derby, viajada, insegura, esperta, criança, rápida, não tem memória de peixe, sonha alto, luta feito um Claudiomiro atrás do prato de comida, destila palavrões, sorve todos os álcoois disponíveis, gosta de ser metamorfose, importa-se, cuida, pergunta, dirige, critica, suspira, vive. A leoa do mar.

Subiu a serra tantas outras para ver um tricolor capaz de criar todos os cantos possíveis para celebrar o épico clássico de cada encontro. Entre vinhos, perdições augustas, voos furtivos, telões banhados de sangue, despedidas e chegadas de rodoviária. Em cada ida ao Morumbi, criei oponentes imaginários para celebrar ainda mais loucamente cada gol – só para sentir repetidas vezes o sabor de conquistá-la.

Na Ponta da Praia, aqueles olhos pequenos, meio indígenas, meio ogros, rapidamente me fizeram sentir como casa a Ana Costa, Urbano Caldeira, o museu do Rei, a Bolsa do Café, os paralelepípedos soltos do Porto, o anonimato das longas noites – tantos fragmentos, pedaços, enredos. Ali eu era São Paulo, rendido a Santos. O vermelho sobre o branco e preto da saudade. Perdia com gosto, ganhava em silêncio.

Estes amores unem clubes, cores, cidades – ainda que haja uma fileira de montanhas a separá-los. Mais intenso que os de criança, quando rabiscava poemas para as impossíveis paixões da escola, ou torcia esperançoso mesmo diante da inevitável derrota. Torcida Jovem e Independente no mesmo altar.

Ultimamente, por forças do tempo e outras desconhecidas, voltei a acompanhar o time apenas pela televisão. Mas a sensação é diferente. Ela me fez ver o Santos com outros olhos. Seu uniforme bicolor é uma tela em branco a esperar uma faixa vermelha de amor. A menina da Vila é uma grande mulher, em suas doces pedaladas, a caminho do mar. Dentro e fora do alçapão, jogue o que jogar, será um clube sempre bem amado. Pois as glórias, meus amigos, jamais viram passado.

Mais do que beijar o vermelho do escudo, olho para o branco e preto e sorrio com o canto da boca, sabendo que meu coração também tem um pouco de lá.

Até a próxima partida.

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