Fumaça, papel picado e a verdadeira festa do futebol

“Boca, mi buen amigo.

Esta campaña volveremos a estar contigo.

Te alentaremos de corazón.

Esta tu hinchada que te quiere ver campeón”.

Estes eram os versos entoados pela torcida do Boca Juniors momentos antes do cotejo máximo do país, o Superclasico, nos idos de 2009. Pela primeira vez fui testemunha ocular da partida. Cenário de jogo de futebol: Bombonera lotada, torcida inflamada com seus trapos e guarda-chuvas coloridos em punho e ansiedade pueril nos olhos de todos. Eis que entra em campo o escrete xeneize – que carinhosamente é chamado de “los 11 muchachos vestidos de azul y oro” – e, em questão de segundos, a canção se dilui no barulho e toda a arquibancada explode em saudações e na chuva de papel picado. Papéis que tardariam a serem assoprados do gramado para que a partida começasse fora do horário marcado. Tamanha era a minha surpresa (e a cortina de fumaça), que não percebi quando o River Plate subiu à cancha.

Faço essa introdução para falar de um tema que incomoda a mim e acredito que a todos que consideram uma partida de futebol muito mais que 90 minutos de uma disputa esportiva: a entrada em campo do seu time de coração.

A nova maneira dos times entrarem em campo é mais um passo à frente da jornada que vem matando o futebol ao longo deste novo século. Juiz ao centro, um time de onze enfileirado de cada lado, cada jogador segurando uma criança (e apenas uma), música de fundo tocada pelo alto-falante. Começada a marcha, juiz pegando a bola num pedestal e conduzindo a tropa rumo a um portal onde está estampada mais uma marca de um patrocinador qualquer. Depois, perfilados, jogadores calçando chuteiras coloridas entoam o hino nacional. Virou exército e não nos avisaram! Algo pode ser mais patético, depressivo e desprezível? Falo, evidentemente, da divisão principal, porque o futebol resiste bravamente nas séries inferiores!

Nós, que tivemos nosso caráter futebolístico forjado em canchas por aí há mais de 30 anos, sabemos bem como era uma entrada em campo de verdade: juiz entrando em primeiro, para que todo um estádio conseguisse xingá-lo em uníssono. Time adversário entrando em segundo lugar para, novamente em uníssono, ser devidamente recepcionado pela torcida local. E, finalmente, o seu time de coração entrando em campo por um fosso no gramado, e não através de um túnel da zona-mista – em que emissoras de TV e os abjetos telões já tivessem mostrado os dois times se preparando – para que toda a adrenalina até então armazenada explodisse de uma vez! Tal qual o ritual argentino repetido por todas as hinchadas de lá, e que de maneira simplória tentei descrever, tínhamos o nosso. Pois não temos mais. E talvez as novas gerações jamais entenderão o que era isso.

O seu time subia sozinho, imponente, jogadores desordenados, um bando de crianças correndo à volta dos seus heróis, a musiquinha de entrada era o gogó de cada um de nós que produzia. Toda a energia da massa concentrada apenas no time, nada mais! Como se o tempo parasse só para que os 11 fossem cortejados. Eles, que te representariam pelos próximos 90 minutos. Mereciam até gravata e paletó, pelo menos até a bola rolar!

Depois da proibição de jogador tirar a camisa e pular no alambrado para comemorar, das bandeiras e rojões, da cervejinha (com álcool) e até da doutrinação de como comemorar gols que a emissora câncer do futebol inventou com o tal João Sorrisão, resolveram matar também a entrada em campo. Até a mãe do juiz – uma verdadeira entidade ludopédica – já nos impedem de agraciar devidamente. Não sei se por ordem dos velhos caquéticos da FIFA, por força dos malditos patrocinadores ou apenas por falta de senso crítico.

Perdemos muito com isso. Além dos motivos já citados, perdemos o protagonismo do time da casa e também já não existe mais a possibilidade do cidadão comum descarregar as mazelas da vida cotidiana no craque rival, ou no ex-jogador desafeto do time adversário e até no homem de preto – que já não veste preto – entrando separadamente.

E seguimos assim nessa guerra: “nós” ainda tentando manter nossos poucos rituais que sobraram de outrora e que nos fizeram amar esse jogo e “eles” tentando a cada dia matar umas das maiores (quiçá a maior) manifestação de cultura de massa existente no planeta.

E para meu desgosto, a Federação Paulista de Futebol agora anuncia que o certame do ano que vem terá hino “vibe de champions league” para o ritual de entrada em campo.

Ressuscita futebol!

por Rodrigo Firmani, colunista convidado

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3 comentários sobre “Fumaça, papel picado e a verdadeira festa do futebol

  1. Estive presente…um dos maiores espetáculos promovidos pelos torcedores dos 2 times…
    Na 2ª partida nem se fala…o Morumbi quase caiu!…
    Tricolor campeão…Nunca mais veremos o Morumba assim…RIP

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  2. Cara, quem viu, viu. A expectativa pela entrada do seu time em campo, os rojões, a festa das bandeiras e papéis picados. Morumbi ou pacaembu divididos. Isso não tem mais lugar no mundo asséptico das arenas. Passado, foto na net. Mas como dói!

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  3. Saudades do velho e bom futebol. Desde 1998 não entro num estádio de futebol, virou um lixo, um antro de playboy, esta elitização do esporte nacional acabou com a magia dos estádios. Até a camisa da seleção brasileira virou símbolo de fascistas, apropriada pela classe mérdia branca. Bons tempos o Mineirão, Maracanã com a Geral, finais no Morumbi, times do interior chegando nas finais, tudo passado.

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