Ele colocou o futebol na boca do povo

Futebol é uma palavra que faz sentido apenas se pronunciada pela boca do povo. Patrimônio cultural dos desdentados, aparelhados, branqueados, uma de nossas mais genuínas expressões nem sempre foi tratada de modo, digamos, coloquial.

Embora as arenas, selfies, direitos de transmissão, cartolas corruptos e outras mazelas teimem em sacanear nosso tão amado esporte, é sempre bom entender as raízes das boas coisas que um dia constituíram as bases do finado ludopédio.

A crônica esportiva, sem dúvida, foi uma das principais responsáveis por levar uma modalidade tratada outrora com pompas elitistas ao calor ensandecido de uma geral ou Coreia. As páginas dos jornais fizeram a tinta cheirar a gol. E isso viciou o povão.

O grande jornalista Ruy Castro, ao biografar Nelson Rodrigues em O Anjo Pornográfico, aborda, à medida da importância, os personagens cruciais para a formação de um dos mais controversos escritores brasileiros. Filho de Mário Rodrigues Filho, também artesão da imprensa – à guisa da política -, teve na numerosa turba de irmãos algumas figuras de imenso destaque na configuração cultural de um Brasil turbulento e intrigante na primeira metade do século passado.

Um destes irmãos sobressaiu em meio à montanha-russa financeira e emocional que assolou a família Rodrigues após a morte precoce do patriarca Mário. Se Nelson expôs as entranhas do ser humano na sua produção literária e teatral, Mário Filho resolveu abalar as estruturas do texto futebolístico.

O jornalismo esportivo era limitado, na década de 1910, a uma página nas publicações mais expressivas. Porém, restringia-se a comentar jogos já consumados e comentados pela população. Os repórteres da editoria figuravam entre os menos favorecidos. Viviam do lanche, conta Ruy Castro, oferecido pelos clubes aos profissionais que compareciam aos treinamentos.

Foi por volta de 1927 que Mário Filho, já nos jornais pertencentes a seu pai – A Manhã e Crítica – entendera o futebol como um assunto com alto potencial para vender exemplares. Passara a explorar a narrativa do esporte como algo além-jogo: ferimentos em sessões de treino, entre outros fatos que orbitavam o clima das partidas, ganharam peso jornalístico e relevância para o público.

Ruy Castro conta que “Mário filho aproximou o jornal e os torcedores, simplificando o nome dos clubes. Até então os jornais calçavam polainas quando se referiam, à inglesa, ao Club de Regatas Flamengo, ao Fluminense Football Club. O Bangu, que era time de fábrica, era The Bangu Athletic Club”.

Foi aí que Mário simplificou tudo e aproximou o esporte do torcedor, demolindo o alambrado dos anglicismos e do tom rebuscado para falar daquela modalidade cheia de disputas, suor e lama. Deu vida aos jogadores, tratando-o como seres humanos com trajetória, dramas, vidas particulares e também os deixou mais expostos aos leitores cada vez mais fanáticos pelas agremiações.

Mais tarde, já nas dependências d’O Globo, lançou o Mundo Esportivo, impresso nas máquinas do jornal, mas como uma publicação à parte e pioneira por ser totalmente dedicada à verve das diversas práticas.

Durante sua carreira, Mário militou por questões que mudariam os rumos da bola. Lutou por meio das letras para que, nos anos 1940, fosse construído no bairro do Maracanã – e não em Jacarepaguá, como era a proposta original do vereador Carlos Lacerda – o maior estádio do mundo. E assim, a luz se fez.

Morto aos 58 anos, o recifense batizou o Maracanã. Legado maior não poderia deixar. E arena alguma há de apagar.

#RIPFutebol

Por Rodolfo Araújo

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