As camisetas do moleque travesso

*Do Museu da Pessoa; história de Henrique dos Santos Dias

Identificação. As primeiras lembranças do bairro em que sempre viveu: a Mooca. Os contatos com a avó e vizinha, as brincadeiras na rua e o comércio local. O começo da paixão pelo Clube Atlético Juventus e do bairro que recebeu levas de imigrantes e que hoje passa por profundas transformações. A venda de camisetas para amigos e familiares quando criança e a ascensão como dono de seu próprio negócio. A variedade de produtos temáticos e dos clientes, de diversos lugares da cidade, do Brasil e de outros países.

A ideia do meu negócio partiu do princípio de que eu não encontrava em nenhum lugar a camiseta do Juventus. Se encontrava, era um valor muito alto. Seria 100, mais de 100 reais. Não ia pedir isso para o meu pai por uma camiseta do Juventus, até porque ele é santista, ele não ia entender. Aí o que eu fiz? Encontrei a camiseta primeiro e avisei os amigos do colégio que eu tinha encontrado. Aí todo mundo gostou. Falei que era o preço tal, ia sair por tanto, todo mundo aprovou: ‘Vou fazer então, vocês me pagam quando estiver pronta.’ Fiz umas 12 camisetas. Quando ficaram prontas, eu levei ao colégio e vendi tudo. Aí mais tarde eu descobri um lugar que vendia camiseta mais barata, só que não era da cor do Juventus. Aí eu comprava aqueles tubinhos de tingir camiseta, comprei vários baldes, e fazia uma bagunça em casa! Fervia água, jogava o tubinho lá com o corante. Jogava as camisetas brancas lá e fervia tudo.

Aí depois colocava para secar no quintal de casa. A cozinha da minha mãe ficava grená, uma bagunça absurda. E, como estava tendo saída, um dia eu resolvi arriscar: comecei a ir à Rua Javari. Parava ali na esquina, abria o porta-malas e esperava. Deu certo. Deu tão certo que eu pensei: se eu abrir seis dias por semana, vai ser muito maior a venda. E ainda tinha mais essa – o pessoal falava: ‘Você só vem de sábado? E durante a semana, onde que troca?’ Às vezes dá um defeito ou ficou pequena, o cara não consegue vir de sábado, quer vir durante a semana.

Aí ficavam me ligando, iam à minha casa. Pô, tô lá em casa, acabei de chegar, gente me telefonando: ‘Ô, preciso trocar a camiseta.’ É chato, né? Uma pessoa que você mal conhece deixar entrar na sua casa para trocar um produto. Começou a ficar meio estranho. Claro que eu fiquei com dúvida sobre a loja, porque ia ter um custo que até então eu não tinha. Pegava o carro, gastava 50 centavos de gasolina para chegar até a Javari, nem isso. Não tinha custo nenhum, daí eu falei: ‘Vou ter aluguel, vou ter que pagar conta de água, de luz, de telefone, não sei o quê. Será que vale a pena? Quanto eu tenho que vender?’

No mês em que eu abri a loja, já tive lucro, então já falei: ‘Meu, tá bombando!’ Eu tive que abrir a loja; foi uma necessidade mesmo. Hoje, ali, eu não só trabalho com o Juventus, eu vivencio o Juventus. Todo dia vem uma pessoa: ‘Pô, sou ex-jogador do Juventus. Joguei aqui não sei que época.’ Aí vem outro senhor e fala: ‘Eu estava no dia do jogo lá com o Pelé e, antes do jogo, a gente roubou os instrumentos da torcida do Santos.’ Mais uma história. Daí entra outro e fala do pai que morava ali, que aconteceu tal coisa. Então todo dia parece que eu estou tendo aula de história do Juventus, uma história da Mooca.

 

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