O dinheiro e a busca pela glória

Quando era criança, no alto dos meus dez anos, a vida se resumia em estudos e futebol. O objetivo do dia era ouvir o sinal da escola tocar, para correr até a quadra do bairro, encontrar amigos (e inimigos) para passar horas jogando bola.

Cada um com sua camisa surrada, seu tênis velho e aquele largo sorriso. Estavam todos prontos.

Lembro bem que todos os amigos queriam ser um jogador. Um encarnava o Marcelinho Carioca. Outro era Raí. Um terceiro queria ser Edmundo. Tudo isso refletia um sonho: ninguém ali desejava nada mais do que ser ídolo do seu time do coração. Na verdade esse era o sonho de todo mundo.

Acabada a partida, cada um voltava para sua casa e vivia sua historia. Eu lembro claramente de ver minha família comendo o pão que o diabo amassou para sustentar as minhas necessidades, e pensava comigo mesmo: “quando for um ídolo do meu time de coração, vou poder dar uma vida digna”. Era o necessário. Na verdade, muito mais que o necessário.

Todos ali continuaram suas vidas. Todos da minha turma, e todos que jogavam bola nas ruas (ou nas quadras), tinham um sonho parecido.

Alguns conseguiram realizar esse sonho. E fizeram da bola a sua companheira de profissão.

Muitos desses que conseguiram o sonho de jogar futebol acompanharam a evolução, digo, a morte, do futebol. E com ela, acompanharam também a morte dos estádios, das torcidas, e de tudo que fazia do esporte bretão algo tão apaixonante.

O que muitos não imaginavam é que os sonhos e a BUSCA PELA GLÓRIA também seriam destruídos.

Não bastasse ninguém se importar com a camisa que veste, ninguém mais faz questão de tentar escrever o nome na historia do futebol.

Ninguém mais quer ouvir a torcida gritar seu nome.

Ninguém mais quer fazer o gol do título no último segundo do jogo.

Ninguém mais quer fazer gol em cima do rival.

Ninguém mais quer dar apenas uma vida digna para a família.

O novo sonho é encher os bolsos até que não se caiba mais dinheiro.

A nova glória é jogar onde não exista tradição futebolística.

O novo objetivo é jogar em estádios onde a torcida mal saiba seu nome ou quem você é.

Tudo em nome dele. Do dinheiro. Que anda lado a lado com a ganância.

Dinheiro é necessário. Todos nós precisamos dele. Não vamos entrar nesse mérito, até porque falamos de futebol, não de economia. Mas se jogadores com mais de cinco anos de carreira ganhando centenas de milhares por mês ainda precisam fazer o pé de meia, algo parece estar fora de controle.

O panorama é fantástico. Uma Seleção Brasileira formada por jogadores de clubes do primeiro escalão do submundo europeu e asiático. O hexa fica cada vez mais perto a cada jogador que decide abandonar a visibilidade, conquistas significativas e marcas históricas, em troco da independência financeira.

Sobre os clubes brasileiros, estão todos de parabéns. Entraram na onda de pagar salário astronômico pra qualquer Zé Mané, e agora nenhum consegue segurar proposta que vem de fora, seja lá qual for o mercado.

A sorte nossa, a sorte de quem sonhava em ser ídolo do time do coração, é que a China é um país enorme. Existe espaço suficiente para construir um cemitério gigantesco para o futebol.

Por Mateus Ribeiro e Alexandre Komesu

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Um comentário sobre “O dinheiro e a busca pela glória

  1. Prezado autor desse texto é com muita tristeza que digo que concordo 1000% com esse texto. Esse blog está de parabéns por captar tão bem o momento em que vivemos. Mais preferia que o blog RIP futebol não existisse e que sim o futebol não tivesse morrido. Me desculpem pela sinceridade, mas ler os textos daqui me trazem um sentimento ambíguo. Ao mesmo tempo que tenho a leitura muito honesta com a realidade, tenho um sentimento de nojo pelo que fizeram com nossa paixão. Mas disso vocês não tem culpa. Lamento muito o desabafo, mas não vejo luz no fim do túnel. Acho que vai piorar muito mais. O futuro será ainda mais nebuloso. Forte abraço continuem com esse
    Maravilhoso trabalho.

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