A noite em que o passado venceu o presente

*Pelo leitor-torcedor Pedro Cavalcanti

Gostem ou não, Rogério Ceni foi o último símbolo do futebol do passado. Vestir uma só camisa durante toda a carreira fez do agora ex-goleiro uma bandeira contra as multas rescisórias e a noção de que o sucesso existe somente na Europa e passa pelas chuteiras coloridas. Por isso, nada mais justo que a festa de despedida do M1TO, num jogo entre o São Paulo de 1992 e 1993 contra o Tricolor de 2005, tivesse um pouco da atmosfera que imperava nas arquibancadas até o início da década de 1990, época em que associávamos jogadores aos seus clubes, e não a suas contas no Instagram ou seus cabelos.

A permissão da entrada das bandeiras de mastro, adquirida somente no dia da festa, representou o que é a luta daqueles que correm na contramão do futebol moderno. Um dia antes, em reunião da Polícia Militar com o São Paulo Futebol Clube e com as organizadas, ficou decidido que cada torcida poderia levar apenas cinco bandeiras. Um avanço se compararmos com o veto que existe no estado paulista desde 1995, mas um número ridículo perto da grandeza do evento. Por méritos da Torcida Independente e de alguns dirigentes e jornalistas que ainda acreditam no futebol como sinônimo de festa, a censura caiu e o futebol renasceu, ainda que momentaneamente.

morumbitorcedor
Há quanto tempo uma bandeira não era tremulada por essas bandas?

Apesar da insatisfação dos aventureiros que queriam ver a partida festiva com o conforto de uma sala de cinema, a reação das crianças que acenderam os seus primeiros sinalizadores com ajuda dos irmãos mais velhos ou dos pais ajudou a engrandecer um espetáculo que nasceu para ser gigantesco. A presença dos bastões de fumaça, em menor número, também deram as cores necessárias para que a noite se tornasse mágica. Apesar do veto aos objetos pirotécnicos, não foi difícil passar pela revista dos policiais. Por incrível que pareça aos desavisados, não houve nenhum ato hostil por causa dos itens.

morumbi bandeiras
Anos 90 de volta?

Dentro do Morumbi era gritante a diferença entre torcida e plateia. Tem quem foi ao estádio para celebrar a vitoriosa carreira de um ídolo, mas teve quem foi ao estádio para encher o mural do Facebook com fotos daquilo que até então era desconhecido. A liberação da venda de cerveja, que aos poucos começa a ser uma realidade em São Paulo, trouxe à casa são-paulina aquela gente que adora largar o show durante o seu ponto alto para buscar mais bebida enquanto o apaixonado perde detalhes do que rola no palco. Inevitavelmente houve confusão entre bebedores e torcedores exaltados. O consumo liberado da bebida virou uma atração para quem só pisa na bancada quando convém, mas foi esquecida por quem preferiu se embebedar na história.

A permissão dos velhos materiais das torcidas organizadas, extintos ou barrados por “apresentarem riscos aos torcedores” serviu para aquecer o coração do são-paulino que entende o futebol como parte da cultura brasileira e está enraizado na alma de quem perde a voz na beira de um campo em vez de perder o plano de dados no sofá da sala. Ocupar um lugar na arquibancada virou um prato cheio para quem quer fazer bonito nas redes sociais, mas que nem sempre sabe o que realmente quer fazer num estádio. Entretanto, ao menos uma vez as selfies perderam para um grito.

Quando a Torcida Independente bradou “ódio eterno ao futebol moderno”, já no fim da partida entre os são-paulinos bicampeões do mundo em 1992 e 1993 e são-paulinos campeões do mundo em 2005, toda a festa ao eterno capitão tricolor fez sentido. Caras como Rogério Ceni merecem o melhor que o futebol pode proporcionar e quem foi ao Morumbi presenteou o ídolo com uma das mais belas imagens que o futebol paulista viu nos últimos 20 anos.

#RIPFutebol

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3 comentários sobre “A noite em que o passado venceu o presente

  1. Que não seja o último suspiro antes da morte do futebol disse:

    Digo de antemão que não é minha intenção estabelecer aqui comparação. O São Paulo e os São Paulinos fizeram uma festa de despedida maravilhosa no Morumbi; os bandeirões realmente fizeram lembrar de como esse estádio era na década de 90 (msm o público foi muito mais próximo de grandes jogos de antes) e, ainda que em evento “não oficial”, há que se considerar toda a festa feita uma vitória (em uma batalha) na guerra contra o estabelecimento do padrão classe média no futebol.
    Dito isso, já faz quase duas semanas que aconteceu a final da Copa do Brasil entre Palmeiras e Santos. O RIP F.C. não tem nada a publicar sobre? Não tem nada a comentar sobre o que representa a volta (desde o ano passado) dos mata-matas entre os principais times do país? Não tem nada a dizer sobre a ocupação dos entornos do estádio pela torcida palmeirense (da qual orgulhosamente faço parte)? Não tem nada a dizer sobre o título “à antiga”, que foi esse conquistado pelo Palmeiras no inesquecível dia 2? Sobre a emoção que essa conquista envolveu, msm nessa época de pasteurização dos sentidos (de tudo)?
    Eu fiz parte dos muitos mil que “assistiram” à partida do lado de fora do estádio (e garanto que não foram 4 mil, como vi em alguns meios de comunicação – talvez tenham sido 40 mil, tvz mais), não tenho plano de sócio torcedor, não tenho grana pra ingresso, mas, feito tantos outros torcedores, acompanho todo santo jogo do meu Palestra; fiz parte dos que ignoraram ou se opuseram conscientemente à recomendação de quem administra “a arena”, de “não se aglomerar” próximo ao Palestra, já que “o respeito aos moradores da região é tão importante quanto comemorar o título do seu time de coração”; fiz parte dos que estavam ali pra participar de uma verdadeira manifestação, de um evento de fato popular, de uma comunhão, uma enorme oração conjunta, participar do que foi talvez a maior festa feita pela torcida palmeirense nos últimos 50, 60 anos, quiçá a maior de todas; participar com tudo o que podia ser dado, nosso grito, nossa energia, nossa fumaça, nossas luzes, nosso coração, nossa alma, com o único fim de fazer do Palmeiras campeão de um torneio nacional com relevância inconteste, pra fazer desse ano o famoso “ano que vem” Palmeirense. E funcionou! Enfim, não vou me alongar muito no que é, na verdade, um pedido com um “quê” de reclamação.
    Vcs pregam a morte do futebol moderno. Ele morreu. Ainda que só por uma noite, só naquele espaço, só pra’quela gente. E foi lindo ver o futebol de verdade de novo, com seus sinalizadores e bandeirões, com seus choros e joelhos no chão, com seus abraços de completos desconhecidos, com seus jovens em cima de ônibus e caminhões (e tome trânsito completamente parado – “parabéns” Haddad, pela falta de consideração e organização – não era pra’queles carros e ônibus estarem ali), com seus rojões incessantes, suas gargantas, pernas e braços incansáveis, suas superstições, suas mandingas, e ainda envolto numa pluralidade fantástica, ímpar. Me decepciona um pouco que o Rip não tenha reconhecido tamanho acontecimento, ou que demore tanto pra fazê-lo, caso pensem em escrever algo sobre, e aqui tvz caiba uma ponderação minha: reconheço que esse meu querer ver isso tudo publicado aqui, como que legitimado por todos como ‘ocasião especial’, atípica dos dias atuais, que foi, é também um certo esperar que se reconheça que o meu Palmeiras, assim como o futebol, não está morto – msm com elitização, msm com arena, msm com discursinho neoliberal – a nossa paixão ainda canta e vibra, e muito forte, e isso faz do Palmeiras e do futebol muito vivos… por incrível que possa parecer, talvez mais do que nunca!
    Aguardo o posicionamento do Rip (afinal, é isso o que fazemos em relação ao futebol, nos posicionamos, certo?).
    Abraços,
    Lucas.

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    1. Grande Lucas, que bela resposta! Sou palmeirense ‘das antigas’ como nosso Glorioso Palmeiras também é. O Palmeiras, como poucos times no Brasil, é o que melhor representa o verdadeiro futebol, com suas conquistas, e história digna no cenário brasileiro e mundial. O que aconteceu naquele 2 de dezembro é algo digno de registro, para eternizar o futebol na sua verdadeira essência. Por mais que queiram ignorar, a festa que fizemos resgatou nossa verdadeira vocação. Vocação de fazer tremer todos que gostam de futebol, independente do time que torcem. Vocação que temos desde o nosso nascimento: Sermos Campeões!
      P.S.: Meus respeitos ao Rogério, merece todas as homenagens, dificilmente alguém igualará seus recordes. Não é meu ídolo. Romário é, por exemplo. E lógico, nem preciso falar da infinidade de caras que já vestiram nosso manto. Abraços.

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    2. Parabéns Lucas pela lembrança, também entrei no RIP esperando algum texto enaltecendo a demonstração de paixão ao Palmeiras e ao futebol na sua essência que nossa torcida mostrou, dentro do estádio foi sensacional como um título dessa expressão merece, mas fora dele foi épico, como explicar milhares de pessoas que não puderam entrar, pelos mais variados motivos, se aglomerarem nas ruas acompanhando como dava o que estava acontecendo dentro de campo por celulares, nas poucas tv´s dos botecos, insuficientes para uma multidão ou esperando o grito ou manifestação de alguém pra saber o que tava acontecendo no jogo, sem desmerecer a festa do Rogério, faltou sim uma citação ao que se viu na Turiassu, Palestra Itália, Caraíbas, Matarazzo e adjacências, o amor ao futebol respirou na noite do dia 02/12/15, sem aparelhos!

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