Pós-modernidade e pós-futebol

Numa página do “Coronel no seu Labirinto”, em que o escritor colombiano Gabriel García Marquez discorre sobre os últimos dias do Simon Bolívar, o próprio responde a um francês que opinava sem ser convidado sobre os caminhos políticos da América Latina: “¡Por favor, carajos, déjenos hacer tranquilos nuestra Edad Media!”.

Guardadas as proporções – a idade média parece meio violenta, vista daqui – às vezes sentimos a mesma coisa quando vemos alguém pedir a modernização do futebol: “Por favor, caralho, deixa a gente curtir nosso futebol medieval”.

A tal modernização do futebol pode estar disfarçada, escondida atrás de bons números e mesmo de bons exemplos, mas na realidade a meta é uma só: copiar o modelo europeu.

Real e Barcelona são os dois ícones dessa mentalidade. São as duas potências que todo time deveria almejar. Quem não quer ter Neymar, Messi e Suárez no ataque? Tem muito apelo, convenhamos.

Mas o que a gente esquece é que a própria criação dessas potências pressupõe a pobreza futebolística do futebol em que se inserem. O ludopédio espanhol morreu. Ele gira o ano todo à espera de único clássico, alçado ao posto de maior jogo do mundo. É insuportável. A distância para o resto da Europa não é muito diferente: o Bayern na Alemanha, principalmente. Semana após semana, esses times goleiam uma Roma na Liga dos Campeões.

O Barcelona mete 4, 8 ou 12 a 0 num time qualquer – que muitas vezes nem é um time qualquer, mas um clube com história e tradição – e os turistas no Camp Nou vão à loucura. É exatamente o que eles pagaram pra ver: gols do Messi e não daquele atacante do outro time, que mal sabem o nome.

Não é gente que gosta de futebol, daquele 0 a 0 suado, brigado no meio de campo, batalhado.

Tudo isso – com todo esse exagero permite o RIP F.C. – faz parte do modelo de futebol europeu.

Modelo que esmaga os pequenos e embrulha os maiores bem colorido, para vender por muitos milhões. É a cara do Cristiano Ronaldo passando no mundo todo num comercial de caspa. Marketing.

Não dava pra gente se juntar e pensar em outra coisa? Na valorização dos estaduais, coisa tão nossa e tão antagônica à lógica das ligas dos campeões dos campeões que imperam por aí? Nessa fogueira, já jogaram nosso mata-mata.

Pouca gente notou, mas no último Flamengo e Corinthians, os dois times se juntaram num esforço tosco de comunicação, tentando enfiar goela abaixo de todos que aquele era o maior clássico do Brasil.

Não é: antes de Flamengo e Corinthians estão todos os clássicos regionais que não vale nem mencionar por aqui.

Qual a cópia que vem a seguir? Para onde vamos com essa modernidade?

Dentro e fora do futebol.

#RIPFutebol

Por Henrique Lederman

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