Dinheiro não compra história e identificação

Depois do título do Corinthians (parabéns), o RIP se posicionou como esperado: discutiu sobre os pontos escorridos e contra o futebol gourmet. Teve quem não gostasse.

“A educação melhorou, ninguém invade o campo para atravessar de joelhos. As coisas mudam, e graças a Deus pra melhor”, afirmou um leitor do RIP. Outro nos chamou para uma reflexão: “basta pensar um pouco, quanto ganha um jogador meia boca? Como você pensa que essa economia futeboleira toda se sustenta? Patrocinador, que é investidor na verdade, quer retorno, não faz caridade”.

Pois bem. Uma mazela do homem de todas as épocas é tomar o que é histórico e artificial como natural e absoluto. Como se o salário absurdo dos jogadores pairasse no ar como algo dado, e não construído por décadas de falcatruas e imoralidades.

Chelsea e a vitória do empreendedor

O salário do maior jogador do mundo em 1995 era de R$62 mil. E o Flamengo quase não conseguia desembolsar essa quantia ao baixinho herói do tetra. Já Ronaldinho chegou à Gávea quase que expulso da Europa levando R$1,3 milhões por mês.

Não é à toa que entre 1995 e 2011 esteja justamente 2003, o primeiro aniversário de morte do futebol. Além dos pontos corridos no Brasil e a ressaca do penta, aquele ano marcou o tempo em que o empreendedor e self-made man Roman Abramovich se apoderou do então modesto e tradicional Chelsea.

É certo que algum engraçadinho vai dizer que odiamos a riqueza, temos inveja de sucesso, e que o dinheiro é dele para investir onde quiser. Mas é só ver o histórico do bilionário russo para saber que o buraco é mais embaixo. Prisão por roubo de patrimônio público, envolvimento com propinas, chantagem. Basta dizer que nas “guerras do alumínio”, quando mafiosos russos mataram mais de 100 pessoas, o grande vencedor tem nome e sobrenome e hoje responde pelo Chelsea. 

A situação de descalabro chegou a tal ponto que em 2006 ele bateu o recorde inglês de transferência com a contratação do Shevchenko por pouco mais de €43 milhões. No ano anterior, o Chelsea registrou prejuízo de €165 milhões, devidamente coberto pelo sucesso comercial (e criminoso) das operações financeiras de Roman Abramovich. Até 2010, este prejuízo se manteve, e certamente se mantém até hoje.

Ou seja, o clube derrotado pelo Corinthians naquela final redentora opera com um prejuízo do tamanho da renda do Flamengo. A conta não fecha.

O Chelsea foi o principal fator na inflação dos salários de jogadores, fazendo com que qualquer Luiz Antônio ou Rafael Marquez ganhe mais de R$200 mil. Em 2006, o então presidente do Bayern de Munique cravava que se as coisas continuassem assim, em 10 anos nenhum time alemão chegaria às finais da Champions. Ele errou por pouco, já que a reação germânica veio à altura.

Prosperidade: Bayern e a gestão séria

Não queremos reproduzir o mito de que europeus (ou alemães) é que fazem boa gestão, ao contrário dos corruptos latinos. Corrupção, má-fé e vigarice é humano seja ele branco, azul ou amarelo. Casos de corrupção e má-fé na Alemanha estão aí, como o recente da Volkswagen, ou o que afastou o ex-presidente do Bayern, Uli Hoeness, que fraudou impostos.

Mas o fato é que a gestão e reestruturação no Bayern foi bem feita. O clube é administrado por ex-jogadores, que comandam tudo de forma independente, menos as finanças. Essas benditas ficam na mão de um fundo, que é o arranjo entre o clube (aquele gerido pelos ex-craques), a Audi e a adidas.

Em 2006, ano em que o Chelsea registrava seu prejuízo recorde, o clube bávaro teve pouco mais de €20 milhões de lucro, reinvestido em contratações. Naquele momento, a diferença entre o investido pelos russo no Chelsea e os alemães para compor elenco era toda a renda de um grande time brasileiro.

De lá até agora, o Chelsea não teve mais sucesso que o Bayern. E a resposta está na estratégia adotada para a expansão do clube alemão. Longe dos grandes mercados internacionais do futebol (Itália, Espanha e Inglaterra), o clube apostou num misto de crescimento doméstico e diversificação de receitas. O timing não poderia ser melhor, já que a União Europeia (e seu membro mais rico) colhia os frutos de um crescimento robusto e sólido. Hoje, direitos de transmissão – a principal fonte de receita de qualquer grande clube – não desempenha papel principal nas rendas do Bayern. E mesmo assim, ele registra superavit todos os anos, e em 2012 teve mais de €373 de renda.

Até então, um caso de sucesso, não? Se você gosta de balanços contábeis, sim. Se gosta de futebol, não. Nos últimos 10 anos, o Bayern foi hexacampeão da Bundesliga, duas vezes vice e um terceiro lugar. O único ano em que ele ficou de fora da Champions, foi o que foi a público reclamar do Chelsea. Bonito, né? Muito competitivo.

Brasil: o que está acontecendo?

O futebol brasileiro é uma bagunça. Dificilmente alguém conseguiria responder a pergunta aí em cima sem desagradar um cartola, um torcedor ou um jogador. Tem gente muito bem (e mal) intencionada discutindo isso agorinha mesmo. Alguma reunião da CBF com a Globo, da Nike com a Traffic, dos deputados Romário e André Sanchez, do Bom Senso com o clube de leitura do Wallace. Enfim… eu não quero discutir título contábil, nem nada. Só estou levantando bolas. Cabeceiem à vontade!

O fato é que dificilmente teremos um modelo inglês. Lavar dinheiro pelo futebol no Brasil não é tão fácil. Os clubes são associações civis, não têm dono, têm estatutos perigosos, instabilidade, brigas políticas, e a CBF parece querer ter o monopólio da falcatrua.

Fala-se de um modelo alemão, com o Corinthians e o Flamengo concentrando as rendas de TV e patrocínio. Parece possível, considerando os esforços do Flamengo (e em certa medida do Corinthians) em se modernizar. Mas alguém acredita mesmo que a bolha da Globo vai se manter? Veremos.

O fato é que em um cenário onde o Malcom  nem terminou de levantar a taça e já tem proposta de mais de R$20 milhões de clube europeu, ser campeão custa caro. E o preço tem que ser pago por alguém.

Na hora de rachar a conta, o torcedor pegou a parte dele: programas de sócios-torcedores, ingressos a R$200, camisa oficial a R$300. A arquibancada (essa palavra ainda existe) se elitizou. Paciência? Não, revolta. E tristeza. 

Não é demais lembrar dos últimos campeões brasileiros e suas parcerias. Sem querer acusar ou fazer ilações, só levantamos a bola para jornalistas investigativos com tempo e recursos. Espanta não haver reportagens exaustivas sobre Fluminense e Unimed, Cruzeiro e família Perrela, Corinthians e BNDES, e a lista continuaria…

Deve haver corintiano, flamenguista, são-paulino, palmeirense, vascaíno, etc. que torce para a intervenção de um sheik árabe ou magnata russo nos seus times. Imagina, CR7 tabelando com Jadson na Arena Corinthians. Eles dirão que é o caminho do progresso.

O RIP responde que a humanidade não anda em linha reta. E qualquer passo rumo a elitização de um esporte marginal como o Futebol é um passo atrás.

Dinheiro não compra história e identificação. Antes de defender o ingresso caro e a Champions League, pergunte de que lado você samba. Dos magnatas corruptos, ou do povo. Não é só um jogo: é a sua vida.

por Marcelo Modesto

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5 comentários sobre “Dinheiro não compra história e identificação

  1. Que texto excelente!

    Aproveitando, gostaria de sugerir uma análise sobre a Lei Bosman, apontada por muitos como o marco inicial da elitização do futebol europeu, uma vez que enfraqueceu os clubes de centros menores, diminuiu consideravelmente o surgimento de grandes ídolos identificados com seus times e possibilitou todas essas transações internacionais bilionárias envolvendo jogadores (e, não custa lembrar, inspirou a Lei Pelé).
    Há até uma questão ética envolvida: é justo que o jogador (um trabalhador como qualquer outro) seja impedido de atuar onde ele quiser e de crescer na carreira? Por outro lado, o consequente e inevitável enfraquecimento dos clubes médios e pequenos é algo desejável?
    Enfim, acho que seria um bom ponto de discussão. Fica a sugestão.

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  2. Me parece que pontos corridos para definir o campeão entre 20 clubes e um sucesso administrativo que impede os outros de brigar de igual para igual estão no mesmo artigo criminal de morte do futebol. Quem está no topo quer se manter lá e quem não está quer chegar. Simples assim.

    Agora se um time alemão como o Bayern faz uma boa gestão, consegue criar um time praticamente imbatível, isso é ruim? Dizer que quem gosta de futebol deveria achar isso abominável é certo? Deveria é servir de exemplo aos outros para que façam o mesmo. Adoraria ver St. Pauli e 1860 Munique e Arminia Bielefeld e Energie Cottbus e outros brigando de igual para igual, com bons times montados com boas administrações e sem gastar muito, desafiando os que sempre foram grandes. Só que romantismo não põe comida na mesa.

    O Corinthian-Casuals, da Inglaterra, primeiro time inglês a jogar contra uma equipe africana, que inspirou o Real Madrid a escolher a cor branca para os uniformes e tantas outras histórias lindas está na oitava divisão e passando o pires para manter duas dúzias de operários e frentistas e faxineiros e motoristas jogando bola por amor. Senão morre. Não há romantismo que pague as contas. Vide a Portuguesa, ficou pequena demais para aquele vice-campeonato em 96. Era romântico, era bonito, foi um oásis no deserto. Guarani idem. Noroeste de Bauru, América de Rio Preto, Caldense, Matonense, São José… Prefiro ver esses times com camisas da adidas e da nike numa arena do que agonizando como estão. A Ferroviária morreu uma vez e está ressurgindo, é outro nome oficial, não é mais aquele time que ganhava do Santos de Pelé. Isso já foi. Agora o escudo permanece e o amor dos araraquarenses também, que vão poder ver sua equipe local medir forças com os grandes. Fruto de uma gestão boa.

    Por que ninguém mais vê moleques de 5 a 10 anos com camisas de seus times locais? Porque todo mundo gosta do que é sucesso, por isso tantas camisas infantis de Barcelona, Bayern, Manchester e afins. É que nem aquela menina bonita do colégio: a maioria quer, pouquíssimos conseguem e quase todo mundo acaba amando a que não se esperava mas que acaba sendo a melhor, mas o sonho de ganhar o prêmio permanece. A gente ama um clube e vai com ele até o fim, mas sabe que só romantismo não é tudo, falta dar aquela enfeitada no pavão. Precisa é mudar e melhorar a distribuição de grana, isso sim. Aí o pavão volta a ficar bonito.

    Quem não queria ver a Portuguesa de novo se mantendo na primeira aos trancos, mas revelando um ou outro craque e de vez em quando montando um esquadrão que assusta? Isso é fruto de trabalho sério e boa gestão. Dinheiro não compra história nem identificação, mas a mantém. Inflacionou, se vira, trabalhe duro e honestamente que os frutos uma hora aparecem.

    O Bayern fez isso e é multicampeão, e é bom para o futebol. Virou uma máquina. Que os outros trabalhem para ganhar dele no mesmo campo, nos mesmos moldes. Culpar pontos corridos e uma boa gestão que virou sucesso em campo e fora dele e dizer que isso é a morte para quem gosta de futebol é muito mi-mi-mi, é muito pequeno. Isso é cabeça pequena, ideia fraca.

    Também sou contra elitização da bola. Adorava ir ao Pacaembu ver o Corinthians quando suava para ganhar do XV de Piracicaba por 1 x 0 ou tomava goleada do Santos. Ainda não fui no estádio novo porque acho caro e longe, mas irei. Não será a mesma coisa receber o canhoto do ingresso que hoje parece um recibo de cartão de crédito e é um lixo do que o cartão de plástico igual aos tantos que tenho guardado. Isso sim é ruim. Disso você pode reclamar. O resto é só resmungo…

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  3. Os amigos que compararam a ascendência do Bayern á gestão de Portuguesa e outros menores, não levam em conta que:
    – o potencial para gerar dinheiro do Bayern é imensamente maior (torcida, patrocinadores, mídia, poder de compra da população, etc);
    – a Alemanha é um país com burocracia melhor estruturada que o Brasil;
    – distribuição de verba televisiva mais equilibrada entre os clubes;

    O sistema (capitalismo?) que garante que o peixe maior coma o menor tá acabando com o futebol.
    Mas futebol é amor, romantismo sim.
    Não empresas que visam o lucro, queda, e extinção da concorrência de forma predatória.
    Gestão, além de competência, é ética.
    Aqui no RS o governador fechou a Sec. de Esportes e Lazer, e a FUNDERGS, que administram e captam recursos para incentivar o esporte.
    Pergunto: como fazer esporte no Brasil?

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