Mata-mata ou pontos corridos, eis a questão

“Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”. Esse dilema sem nenhuma resposta verdadeira atormentava as cabeças de quem hoje conta em seus bolos por volta de 40 velinhas. A pergunta caiu em desuso, mas outra nova pergunta preenche nossas mentes e recheia qualquer conversa de boteco: mata-mata ou pontos corridos?

O ano de 2015 – porque temporada não é palavra que seja digna sequer de ser pronunciada – revela uma clara tendência ao mata-mata. E não poderia ser diferente. O principal certame do país já acabou faz tempo. Os comandados de Adenor assumiram a liderança antes do fim do primeiro turno e não houve qualquer time que os ameaçasse. Porém, na entrega do troféu eu não saberia dizer que time ganhou o campeonato, se foi o Corinthians ou a Chevrolet.  Tentativas infrutíferas de periodistas que vivem de nossa audiência e da decadente emissora dona do campeonato de vender para nós – justo para nós –a idéia de uma emoção que não existe, ainda estão em curso. Mas, realmente não deu. Não nesse ano! Até um leilão do canal do boi é mais animado.

A chatice do ano ainda é defendida –na sua maioria, corintianos – pelo pobre argumento: “Ah, mas os pontos corridos são mais justos”. Mal sabem eles que futebol não é para ser justo. Futebol é para ser futebol. Temos a série B, onde times de prefeitura duelam com times moralizadores. Oxalá sejam essas bravas agremiações que voltem à modorrenta série A e pulverizem de uma vez por toda esses Audaxes. A segundona, que ainda tem um pouco de animação, está trazendo novamente à vida nossas grandes agremiações como Santa Cruz, Vitória, América-MG. Além dos sempre grandes, Sampaio Corrêa e Náutico.

Em contraponto a tudo isso, uma velha fórmula conhecida de todos: mezzo pontos corridos, mezzo mata-mata. Estou, sim, falando das séries C e D. Quem acompanhou as decisões sabe do que estou falando: futebol de verdade!

Grandes confrontos, senhores. Grandes heróis. Grandes vilões. Decisão por pênaltis. Grandes erros de arbitragem. Bandeiras, faixas, arquibancada de concreto, ingresso de papel, comida de rua na porta e exclusão midiática. Misture tudo isso numa caçarola e temos o velho e bom futebol! A série C, que coroou o seu campeão Vila Nova num belíssimo embate, também nos brindou com o renascimento da Portuguesa de Desportos, que por pouco não subiu. O mesmo para o Fortaleza, o Leão do Nordeste. Já o Brasil de Pelotas, o Xavante, que há cinco anos sofreu um acidente de ônibus que comprometeu a performance do escrete, teve seu merecido reconhecimento e subiu. Já a série D já tem o seu justíssimo vencedor: o grande Botafogo de Ribeirão Preto. A jornada panterina teve tudo o que tínhamos direito: classificação apertadíssima na fase de grupos, três jogos de volta (inclusive a final) fora do Santa Cruz, com jogadores a menos, e três zero a zero! Uma final num estádio do Piauí, com público além da capacidade permitida na cancha. Emoldurando a campanha botafoguense, torcida do Remo invadindo aeroporto para recepcionar o time ainda nas fases semi-finais.

Alguns poucos e bravos jornalistas, como Flavio Gomes ou Mauro Cezar Pereira, ainda fazem menções na TV e nas redes sociais dos grandes times das séries menos afamadas mas, ainda é pouco! E – querem saber? – eu prefiro assim. Deixem o que é nosso como está. Se não tem no Playstation, não existe!, dirão alguns. Se não disputam o torneio da cerveja verde, não têm valor. Pobres moleques. Jamais saberão. Quem cresceu lendo a falecida revista Placar e recortando os escudos para colar em seus botões, sabe exatamente o que significa cada time que fez o futebol respirar em 2015.

Ainda temos a Copa do Brasil para tentar salvar o ano, mas a julgar pela ocupação do Mineirão na final do ano passado e pela animação que está o Palmeiras (e seu treineiro com cara de padre de paróquia do interior) e o Santos, o retrato da molecada Playstation, com suas chuteiras coloridas, cabelos e selfies, estamos perdidos!

Quem moraliza o futebol brasileiro atualmente não tem cavalinho de pano do Fantástico, no domingo à noite

por Rodrigo Firmani, colunista convidado.
Foto: Rogério Moroti

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6 comentários sobre “Mata-mata ou pontos corridos, eis a questão

  1. Correção, sou Corinthiano e não gosto dos pontos corridos, deu certo esse ano, mas não é e nunca foi um futebol de verdade… gosto de mata-mata, MUITO mais emoção, só é campeão quando acaba o jogo e por aí vai… pergunte pra pelo menos metade dos outros Corinthianos e veja qual vai ser a resposta… não é porque ganhou o campeonato que tem que se curvar a forma estabelecida por ele.

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  2. Não existe pesquisa que aponte que a maioria dos corintianos prefere pontos corridos.

    Eu sou corintiano e prefiro mata mata todas as vezes. E todos os corintianos que conheço têm a mesma opinião.
    Revejam isso.

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    1. Eu sou o quarto. Lembro muito mais dos Brasileirões de 1998 e 1999 (fórmula ótima, com melhor de três nas fases chaveadas), com o Timão triturando os dois mineiros, do que irei me lembrar da edição deste ano. Do Brasileirão de 2015 irei me lembrar mais mesmo dos épicos 4X3 contra o Sport na Arena Corinthians e 3X0 sobre o Atlético no Independência do que daquele jogo contra o Vasco em que o título foi definido pela combinação de resultados.
      Se é para falar de jogo contra o Vasco, obviamente que irei me lembrar mais da final do Mundial de 2000 do que daquele Brasileirão de 2011 em que Corinthians e Vasco foram praticamente gêmeos siameses no segundo turno e na prática um gol de Adriano fez a diferença.

      Também me lembro muito mais daquela campanha história da Libertadores em 2012, assim como do Mundial daquele ano. Porém, também me lembro daquele Paulistão de 1999 em que as embaixadinhas do Edilson fecharam a disputa. Lembro-me também daquela Copa do Brasil de 1995 em que o Timão venceu o Grêmio no Olímpico e gerou uma marca histórica se considerarmos o quão encardidos são os times gaúchos jogando em casa.

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  3. Em termos de público o campeonato por pontos corridos está superando a época do mata-mata imediatamente inferior.
    13 anos de pontos corridos (2003-2015, penúltima rodada), média = 14.431
    13 anos de mata-mata (1990 – 2002), média = 12.413

    Isso é 16% maior!!

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