Até que ponto somos inocentes?

Vivemos em uma era onde somos obrigados a vencer. Em todas as esferas. Sem pudor algum, cobramos as pessoas dos nossos círculos por resultados a todo instante. No esporte isso não é nem um pouco diferente.
Seja através dos treinadores, dos investidores, ou dos próprios atletas, a pressão por vitórias é imensa. O problema é que somos obrigados, pressionados, a vencer a todo instante. Porém, apesar da nossa evolução (em alguns pontos) ainda somos humanos. Estamos sujeitos ao erro. Não estamos preparados para lidar com a derrota. Tampouco treinados. Nem para a derrota, nem para a pressão. Muito menos a pressão interna.

Partindo desse ponto, vamos falar um pouco sobre  Enke iniciou sua carreira muito jovem. Não queria ser um ídolo. Tinha apenas o desejo de ser um bom goleiro e defender as cores de seu País.
Jogou na Alemanha, e depois andou por alguns times na Europa. Benfica, Barcelona e Fenerbahçe . Não foi bem em nenhum deles. Chegou em um momento ruim nos três clubes. Até o momento em que falhou, não há problema. Afinal, um jogador, ainda mais um goleiro, vai sempre cometer algum equívoco.
O problema maior foi que muitos achincalharam o goleiro. Até mesmo o cultuado (e infeliz) Frank de Boer, seu “companheiro “ nos tempos de Barcelona tirou uma casquinha, e arrebentou com a reputação do arqueiro alemão.
Enke sentiu o golpe. Qualquer um sentiria. Mas ele sentiu de maneira mais pesada. Não era à primeira vez que suas falhas custariam caro.
Quis o destino que Enke voltasse para a Alemanha, onde foi defender o Hannover 96. Ali viveu seus melhores momentos. Seria o goleiro titular dos germânicos na copa de 2010. Seria.
No dia 10/11/2009 resolveu acabar com tudo. Resolveu jogar na frente de um trem todos os seus problemas e sonhos. Todas as alegrias e frustrações. Todo o sofrimento e todo o silêncio.
Robert Enke sofria de depressão. Passou mais de meia década convivendo com esse drama. Poucos sabiam disso. E talvez pouco tentaram o ouvir. Na verdade, não ouviram porque Enke não comentava nada disso. Disfarçava tudo o que passava quando estava reunido com pessoas próximas.
Perdeu sua filha em 2006, ainda bebê. O que agravou sua situação, óbvio.
Ninguém sabia do que ele passava. Mas será mesmo que nunca ele deu mostras de que precisava de um pouco mais do carinho, da atenção e do respeito de quem estava junto dele?
Será que não somos culpados?
Nós, que caímos no jogo da imprensa suja, que cria heróis e vilões a todo instante. Sempre pensando em vender notícias. Sem se importar se o herói salva e se o vilão é maldoso.
Nós, que crucificamos a todos. Sem perdão. Nós que não nos importamos se o próximo está passando por dificuldades ou não. Nós que somos egoístas. Nós que só queremos falar. Nós que não sabemos ouvir.
Será realmente que não temos culpa em casos como esse?
Será que somos realmente tão inocentes?
Nós, que vamos ao estádio, xingamos, ofendemos, humilhamos quem está no gramado.
Nós, que nos achamos tão inocentes.
Não estou insinuando que o drama de Enke foi causado por terceiros, afinal, a mente humana é algo difícil de ser compreendido. Mas, ao invés de piorar, a situação poderia ser melhorada com atitudes benevolentes de quem tanto o criticou.

Que o moralizador Enke sirva de exemplo. Ele, que deve estar batendo uma bola com sua pequena em algum outro gramado, se calou a vida toda. Esperando talvez alguém pedir para ouvir sua Voz.

Robert Enke – 24/08/1977 – 10/11/2009

RIP Enke

por Mateus Ribeiro

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Um comentário sobre “Até que ponto somos inocentes?

  1. Excelente texto. Só um pouco de solidariedade, compreensão e respeito ao próximo. É pedir muito?

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