O legado do pai – O nosso eterno camisa 10

Até o final dos anos 80,minha vida não fazia muito sentido. Tanto que tenho raríssimas lembranças desta época.

Porém, as coisas começaram a mudar no início da década seguinte. Lembro claramente de um calendário do ano de 1990 que tinha como estampa a imagem de um homem correndo com uma bola. Era Garrincha, o anjo das pernas tortas. Claro que não tinha nem ideia de quem era esse genial cidadão. Quem me contou foi Carlos Ribeiro, meu amado e inesquecível papai.

Confesso que não me interessei muito, por um simples e curioso motivo: eu não gostava de futebol. E aquele circo de horrores chamado Copa de 90 não ajudou nem um pouco a mudar minha opinião.

Porém, um dia qualquer, sabe se lá o motivo, acordei chorando pois queria assistir a uma partida de futebol de qualquer jeito. Seu Carlos, herói que sempre foi, deu um jeito de entrar em um clube da cidade, mesmo sem ser sócio, apenas para realizar meu desejo. Ali eu comecei a me interessar pelo que foi nossa maior paixão, e maior laço.

Nos anos seguintes, era rotina aproveitar o tempo que lhe sobrava do trabalho para assistir toda e qualquer partida. Também era comum eu passar horas querendo saber quem foi Nilton Santos, Didi, e tantos monstros que Ele sempre me falava.

Passados alguns anos, lembro claramente dele chegando exausto em casa, com o álbum da Copa de 1994. Talvez o momento mais marcante da minha historia foi ele me ensinando a fazer cola de trigo para colar as figurinhas. Desde sempre, ensinou que devemos trabalhar com as ferramentas que temos, e que o importante é ser feliz.

Tratei de decorar todas as informações de todos os jogadores. Afinal, já sabia ler, já sabia o que era um escanteio, e sabia que minha memória era um negócio de outro mundo.

Assistimos praticamente todas as partidas. Demos muita risada, principalmente da cara da Argentina. Cabe aqui lembrar, aliás, que no dia de Argentina e Grécia inventei que estava com febre para não ir ao catecismo e assistir a partida. Desculpa, Papai. Desculpa, Vaticano.

Comecei a criar meus ídolos e referências. E aí começavam as discussões. “Esse Hagi não seria reserva da Ferroviária”; “Quem é esse time aí que todo mundo tem nome que termina em OV?” eram algumas afirmações que eu ouvia sem contestar muito.

E o que falar dos jogos do Brasil? Taffarel se consolidou como nosso herói, mesmo tomando perus monumentais. Dunga representava uma fortaleza. Romário era nossa esperança. E Parreira era nosso alvo. Mesmo assim, é inesquecível o gol de Branco. Impossível não chorar lembrando de Brasil x Estados Unidos. Inúmeras lembranças. Que quase foram para o saco quando a final foi para os pênaltis. Sorte que Baggio tratou de eternizar essas memórias com um gosto doce.

Assim foi até 1998. Quando segundo Ele, a França comprou a  Copa. Pela primeira vez,ouvi Ele dizer que queria que um raio caísse em sua cabeça de assistisse futebol novamente.

O raio não caiu, e passamos mais de uma década assistindo até a Série D do campeonato francês.

Como em várias historias, a criatura ficou maior que o criador. Me tornei um viciado em futebol. Minha vida era 50% futebol e 50% resenhas futebolísticas com ele.

Virei um estudioso . Na verdade um corneteiro. E sei que isso foi motivo de orgulho imenso para ele.

Nem mesmo nas horas mais difíceis o esporte bretão saiu de nossas vidas. Nem quando Deus tentou levar ele para o mundo dos imortais pela primeira vez, em 2003. Um ataque cardíaco quase o levou. Mas como Gylmar dos Santos Neves, Seu Carlos defendeu sua vida com uma segurança gigantesca.

Assim fomos lutando por anos e anos contra todas as adversidades que apareceram pelo caminho.

Até que em 2012, um AVC atingiu Papai. O lado esquerdo ficou comprometido. Mas mesmo na cama, fazia questão de assistir futebol comigo com o mesmo interesse de outros tempos. Certo dia, chamou minha mãe, e emocionado, com o olho cheio de lágrimas, assumiu pela primeira vez que gostava de ver futebol comigo, pois antes ele me ensinava, e eu naquelas alturas o ensinava. Obrigado. Aprendi tudo com o senhor.

Comecei a escrever sobre futebol. Comentei e até narrei (muito mal) alguns jogos pela TV. Participei de programas futebolísticos. Tudo sempre sob o olhar apaixonado dele. Um sonho realizado.

Porém, o campeonato da vida estava cansativo. Seu Carlos já estava cansado de tanto jogar e defender sua vida com unhas e dentes.

Uma hora o campeonato teria que ter uma pausa. E exatamente uma da manhã do dia 01 de outubro (o mês 10), meu camisa dez aproveitou a janela de transferências e foi jogar no time dos imortais.

Deixou muita saudade. Porém, me ensinou que a vida é uma aventura que devemos curtir até o último minuto. E  nunca desistir, por pior que esteja nossa condição na tabela.

Após sua partida para outros gramados, percebi que Ele foi muito mais que o maior camisa dez da minha vida. Foi meu maior treinador. Conseguiu me passar todo o esquema tático desse quadrangular da morte chamado vida. Sempre com um sorriso no rosto e um coração maior do que o Estádio Azteca na final da Copa de 1970.

A saudade consome. A vida passa. Mas a história fica.

Muito obrigado, Carlos Ribeiro. Esteja onde estiver, sei que está na área técnica me passando as melhores instruções. 

Muito obrigado, Carlos Ribeiro. Por todo o amor que sempre me dedicou. E por me ensinar a amar o futebol.

Muito obrigado, Carlos Ribeiro. Meu eterno camisa 10

por Mateus Ribeiro, nosso eterno colunista especial! 

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9 comentários sobre “O legado do pai – O nosso eterno camisa 10

  1. Todo Ribeiro é especial! Fiquei emocionado lendo seu texto, brother. Muito obrigado por compartilhar essa história de vida sensacional. Seu pai foi um grande homem.

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