A cara de uma empresa qualquer

De todos os irresponsáveis, pautados pela bagunça, o Flamengo sempre foi destaque absoluto. Contratou craques que não podia pagar, assinou acordos com empresas fantasmas, fez um shopping que não deu em nada… enfim: viu vultuosas somas de dinheiro entrarem e desaparecerem.

Foi Kleber Leite, foi Edmundo, foi Patrícia Amorim, foram tantos outros que – ano após ano – davam sua contribuição na caminhada do time rumo a um abismo que nunca chegava.

Não chegava porque o Flamengo sempre contrariou a lógica, tirando da cartola vitórias expressivas, um título aqui, outro acolá, muito mais na base da raça e da mística de um Maracanã lotado que qualquer outra coisa.

Foram muitas arrancadas inesperadas das profundezas da tabela até lugares mais ou menos seguros, que sempre garantiram a renovação da esperança pro ano seguinte.

Teve Copa do Brasil e invenção de Obina, melhor que Eto’o. Teve Brasileiro com o Pet voltando pra renegociar uma dívida e passando da ponta do banco pro lugar mais alto do pódio. Ao lado do Imperador.

Tudo isso enquanto as contas rumavam inexoravelmente ao vermelho.

Mas assim, esses espasmos de alegria eram pouco. O time de maior torcida do Brasil podia mais, não deveria viver de lampejos místicos, enquanto o trio de ferro paulista se revezava como destino dos melhores troféus.

Era hora de mudar, combater passivos históricos, cortar fora as âncoras que seguravam esse barco de proporções nacionais.

Vieram os Blues, uma chapa de empresários notáveis ostentando cargos de presidência e diretoria em grandes empresas no país.

A promessa era de austeridade, responsabilidade, transparência e o Flamengo mais forte, sem sustentar 8 times de ex-jogadores espalhados pelo país ou já aposentados há anos..

Fora as outras dívidas mais. Ao todo, eram R$ 750 milhões, como apontou uma auditoria financeira no 1o ato da nova gestão empresarial.

Dava pra sobreviver com esse passivo?

Os gerentes arrumaram a casa, transformaram o Flamengo em empresa. Perderam jogadores por um trocado a mais fora do orçamento, demitiram funcionários com anos de clube, captaram patrocínios e fizeram o programa de sócio torcedor.

Subiram o preço dos ingressos.

E a dívida hoje deve estar próxima dos R$ 500 milhões. Perto do que o clube arrecada no ano, R$ 380 milhões, recorde histórico no país.

Os números são aproximados, mas tranquilizadores. Dá pra pagar essa dívida e existe futuro pra a economia rubro negra.

Toda isso há de se reconhecer.

Mas falta a outra parte: o que vai sobrar do Flamengo depois dos anos de vacas magras?

O clube foi além de apresentar times horrorosos em campo – como também fazia nos tempos de penúria administrativa.

O Flamengo, na ânsia repetitiva do seu mantra de clube empresa, acabou transformando o time numa área vulgar num organograma de um relatório administrativo.

Num time em que nunca faltou raça – nem quando faltava luz – hoje se arrastam jogadores como Marcelo Cirino e Canteros, se comportando como empregados enfastiados em mais um dia de trabalho enfadonho numa empresa de telemarketing qualquer.

São meros funcionários. Nem almejam ser ídolos ou modelos de ninguém. É treinar, jogar e sair, enquanto a conta engorda.

A relação com técnicos, diretores, vice-presidentes e toda a estrutura de poder do clube é pautada pela acomodação.

Fala a língua do RH.

A diretoria honra os contratos, os jogadores entram em campo. E ninguém fala um tom mais alto.

A cara do Flamengo é de acomodação.

Em campo, com seus funcionários desmotivados, sem paixão nenhuma, sem tesão.

Fora dele, com esses diretores que não falam a língua do jogador. Que não sabem nem como nem o quê cobrar. Que brincam de casinha no futebol de um time de massa.

Na arquibancada do Maracanã, onde tem mais turista que organizada. Onde se comemora mais aparição no telão que gol.

O Flamengo é a cara de uma empresa qualquer.

Texto enviado por Marcelo Frederico Barreto, leitor do RIP F.C.

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