O Brasil tem vergonha de ser o que é

Tem dois grandes males que ajudam a detonar o futebol brasileiro: a estrutura e os salários dos jogadores. Quer ver?

Vamos falar primeiro da estrutura. Os clubes, na tentativa de imitar a Europa – contrariando toda a tese modernista, o que equivale a retroceder no mínimo 90 anos -, montaram seus centros de treinamento nababescos como se fossem a real solução para reoxigenar um futebol maculado pela derrota na Copa de 1990. Bobagem.

Talvez o maior expoente disso tenha sido o Telê. Mas o forte daquele São Paulo que ganhou tudo não era exatamente o alojamento, a comida quentinha e outras coisas mais. O mérito concentrava-se nele, um gênio das quatro linhas, um obstinado capaz de acordar antes de todo mundo para catar mato no gramado antes dos treinos. Essa era a cereja do bolo: um apaixonado. Basta ver como anda o tricolor hoje. Parece uma velha quatrocentona arrotando champanhe em um casarão caindo aos pedaços e sem grana para comprar um cigarro. Parabéns.

A coisa, no Brasil, precisa ser um pouco mambembe. É Macunaíma, é o nosso jeito de ser. É a última hora, é o gingado. Não significa ser sacana ou corrupto. Se você confunde as coisas, vá ler um pouco.

Mas o ponto consiste nessa mania de copiar aquilo que não nos é natural. Para os alemães está ótimo, porque tem tudo a ver com eles. Mas somos outro mundo e, enquanto formos vira-latas, o jogo jamais irá virar.

A outra questão diz respeito ao salário dos popstars. Sim, porque ser jogador é apenas parte de uma agenda que engloba incontáveis compromissos comerciais, milhares de postagens nas redes sociais e alguns chutes a gol. Mas só alguns, para não cansar.
Não me venha falar de Bom Senso.

Doe seu salário então, craque engajado. Distribua a riqueza – esse, sim, um mal verdadeiro. Saiba que na váreza, sem um puto no bolso, a galera vive muito mais o futebol que esse povinho de arenas.

A matemática não mente. Pagam caro por pessoas que ganham muito mais por fora – seja via PJ ou contratos com patrocinadores – e não têm a menor vontade de serem boleiros de verdade. Sinceramente, prefiro os arranca-dedos do Jardim São Luiz a esses modelinhos em sépia da Arena X ou Y.

Enquanto o Brasil quiser ser outro país, estamos fodidos.

Por Rodolfo Araújo

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3 comentários sobre “O Brasil tem vergonha de ser o que é

  1. O menino que em campo não aguenta correr setenta minutos, fora dele completa agendas com o vigor de um maratonista. E não se pode questionar o seu rendimento dentro de campo porque “é só um menino”.

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  2. O futebol brasileiro perdeu o seu posto quando olhou pela janela e viu um modelinho que funciona lá fora. Não se trata de adaptar o estilo do Guardiola ou do Mourinho ao nosso país. Trata-se de cagar para os modelos dos outros e criar o nosso, ou redescobrir o nosso. Junto disso mudou a relação do torcedor com o seu clube, ou consumidor com o seu produto predileto. Pra que compararem o Corinthians do Tite ao Barcelona atual? Será que o Barcelona de hoje seria páreo ao Corinthians de hoje, ao São Paulo do Telê, ao Palmeiras de 1996 ou ao Santos de Pelé? Somos e precisamos entender que sempre seremos a referência.

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  3. Texto excelente. E a cereja do bolo foi a crítica a esse movimento absolutamente hipócrita chamado Bom Senso FC. A despeito de uma ou outra crítica verdadeira (como a falta de calendário para as equipes menores), trata-se de uma instituição absolutamente incapaz de apontar que os jogadores são, sim, parte do problema. A culpa é sempre dos clubes, das emissoras, das federações, mas NUNCA dos jogadores. Eles nunca apoiaram publicamente contratos de produtividade. Não dão um pio sobre os jogadores que negociam diretamente com clubes da China e do Oriente Médio e avisam o clube empregador sobre sua saída meia hora antes (como corintiano, vi bem essa situação no começo deste ano). Pedem responsabilidade financeira, sendo que os jogadores são os primeiros a exigir contratos milionários e fazer corpo mole tão logo ocorra algo que os desagrade (nem vou mencionar o choro em relação a jogar duas vezes por semana, como se fosse algo exclusivo do futebol brasileiro).
    Enfim, ate agora só vi propostas que beneficiam a eles. É um troço totalmente corporativista. Se a iniciativa não for partir também dos jogadores, o nome Bom Senso é totalmente inadequado.

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