Nunca pensei que diria obrigado

O Maracanã era o maior lugar do mundo em 16 de julho de 1950.

E era lá que estavam mais de 170 mil pessoas, dentre elas quem protagonizaria uma das maiores façanhas da história das copas. Talvez a maior.

Alcides Ghiggia, quando venceu Barbosa, era como se batesse uma foto: em preto e branco, eterna, na enciclopédia do futebol.

Glória Máxima da Nação Uruguaia, gente de humildade e raça.

Passadas as lágrimas, ano após ano, os aniversários do Marcanazzo nos levaram sempre de volta à Ghiggia.

À Ghiggia e à Barbosa, criador e criatura, num eterno quem é quem?

Virou amigo do Barbosa, a quem sempre estendeu a mão, diferente de tantos brasileiros.

Em cada nova aparição, o mesmo sujeito simples, carregando aquela imensa glória.
Sempre o mesmo respeito pelo povo brasileiro, o mesmo respeito por Barbosa.

Chegou a dizer que se arrependia do gol? Havia sido ingrato com tanta hospitalidade? Acho que disse, sim, num dia mais frio e contemplativo em Montevidéu.

Quis deus, como que a sublinhar a singularidade de Ghiggia – seu heroísmo – que ele fosse dos 22 fortes de 50, o último a partir.

O homem, que como o Papa e Frank Sinatra, calou o Maracanã, calou os amantes de futebol, partiu. Partiu sem alarde, sem aviso, tal qual seu gol, o maior gol do maior templo.

Antes se foram o capitão Obdulio Varela e Schiaffino, autor do primeiro gol.

Antes se foi Barbosa.

E Ghiggia perdeu aquele que – mais do que sua própria seleção – seria seu eterno parceiro.

O amargurado arqueiro, que esquecido pelo povo brasileiro, ganhou lugar no coração de Ghiggia, o carrasco de bom coração. Coisas do futebol.

Foi o último dos 170 mil presentes a deixar a vida? Quem sabe.

A vida comum que imagino levava até anteontem: a vida pacata que se impõe quando percebemos que o êxtase da glória não é coisa de todo dia.

A vida da padaria, da banca, da praça, o jornal.

Relembrar.

Como certamente relembrou Ghiggia, horas, talvez minutos, segundos, milésimos.

Antes de partir.

Exatos 65 anos depois do dia que leva seu nome.

Por Henrique Barreto e Mateus Ribeiro

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