Carlitos e sua aula sobre amor à camisa

Ontem, na La Bombonera lotada para não ver jogo, o futebol não apenas respirou. O futebol ofegou, bufou, gritou e aplaudiu.

Quando a paixão venceu o dinheiro, Tevez redimiu a história. Naquela cancha, o Boca não era apenas o Boca. Era a América do Sul, era Argentina, Brasil, Uruguai e mais meia dúzia de países exportadores de jogadores antes dos 20; era a prata de Potosí, era os índios e o pau-brasil.

A Juventus era a Europa, era um bando de empresários, era também o mercado árabe e o dinheiro chinês; era a monarquia espanhola e a coroa portuguesa. Tevez era o encontro perfeito entre o “Futebol ao sol e à sombra” e “As veias abertas da América Latina”: que regozijo teria Eduardo Galeano se ainda estivesse por aqui! Tevez está fora do limite do seu cartão de crédito sem limite. Perdoem, lordes, mas vocês não têm dinheiro suficiente para comprar Carlitos.

Carlitos sempre fez o  que quis. Quando quis.

Carlitos sempre deu o sangue por onde passou. Invariavelmente saiu de maneira controversa dos times que passou. Grande parte dos torcedores o ama. Grande parte o odeia. Porém, todos o respeitam.

Saiu há mais de uma década da Argentina para conquistar uma torcida brasileira que há tempos não tinha um ídolo. Saiu literalmente pela porta dos fundos, com direito a alguns mais exaltados chutando carro,coisa e tal. Durante anos, os mesmos que chutaram seu carro rezaram pela sua volta.

Foi para a Inglaterra. Salvar um humilde time da capital do rebaixamento. Conseguiu. Arrumou as malas e foi para um gigante. Conquistou a Europa e o mundo. E daí? O que o impediria de jogar no rival? Deixou o vermelho de lado para vestir o azul.

Depois de um tempo, conseguiu a inimizade de  um treinador que invariavelmente gosta muito de se aparecer. Acabou virando alvo da fúria dos dois lados da cidade, inclusive com caminhão de lixo passando para os torcedores traídos jogarem suas camisas. Esperou. Voltou. Ajudou o clube a conquistar um título que não vinha há mais de 40 anos.

Não quis nem saber. Arrumou sua trouxa e foi para a Itália, comandar o renascimento de um dos maiores  clubes do mundo.

Justamente quando sua carreira na Europa estava no melhor momento, Carlitos resolveu dar continuidade ao seu caso de amor com o Boca Juniors. Simplesmente porque ama o clube e a torcida.

Nunca esteve presente na estúpida eleição de “melhor do Mundo”. Talvez por não ter o perfil BoLeIrAgEm Joga 10 exigido pela FIFA. Talvez por não ser um galã garoto propaganda de cueca, shampoo ou perfume.

Foda se. Tevez quer saber de jogar bola.

Nunca quis ser herói. Mas sempre foi.

Nunca fez questão de ser amado. Mas é.

Nunca fez questão de ser odiado. Mas é.

Difícil mesmo é não respeitar esse cara, que consegue ser autêntico em um meio repleto de cabaço e filho da puta,que só pensa no próprio bolso e na famigerada independência financeira.

Tevez já ganhou muito. Mas quem não ganhou?

Ao contrário de uns e outros que voltam “por amor” ao clube,mas na primeira proposta da China, da Arábia, dos Estados Unidos ou da putaqueopariu abanam o rabo e correm atrás do dinheiro.

Ao contrário de muito pilantra vagabundo que fica fazendo leilão, Carlitos nunca escondeu de ninguém que um dia iria voltar.

Voltou antes do esperado.

Voltou ontem.

Que fique para sempre.

Obrigado Tevez, por realmente mostrar que dinheiro não é tudo.

por Mateus Ribeiro e Pedro Henrique Motta Gomes, colunista convidado

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