A era das cornetas

Houve um tempo de nossa história que torcer pro time era mais importante que qualquer coisa.
O torcedor participava, fazia parte. Ele era o time e o time era ele. Compartilhavam – cúmplices- derrotas e vitórias.

Nesse tempo torcedor não saia por aí alegremente esculhambando o próprio time. Mesmo que o time fosse o pior da história. Muito menos na frente dos rivais.
Ficava puto, socava a parede, xingava a tudo e a todos, mas nunca – NUNCA – se colocava fora do problema.

“Esse time não me representa” soava como dizer que sua mãe não é sua mãe. E que você é um puta de um babaca.

Nesse tempo íamos ao jogo pra descontar nossas raivas e frustrações, mas para isso estavam lá adversários e juízes – e não nossos próprios jogadores. Nesse tempo torcedor era emoção e apontar os erros do seu time numa tentativa de transformar “perdemos” em “perderam” era coisa de comentarista, o ser mais odioso da terra numa derrota.

No bar um “Eu sabia que ia perder! Olhaí, eu avisei!” era digno de confusão. No facebook, essa atitude ganha likes. Na padaria quanto mais fraqueza se demonstrasse mais o chapeiro ia te zuar, ninguém queria a empatia ou a condescendência do rival. Seria como desabafar com o cara que comeu sua mulher!

Hoje, tem mais torcedor que se coloca no lugar do comentarista – apontado clamorosas falhas táticas e de como seria proveitoso mudar o esquema pra 3 zagueiros – do que gente que se coloca no lugar dos jogadores, dos derrotados em campo. Se o cara pudesse ser alguém no estádio… em vez de ser o centroavante matador ia ser o comentarista na cabine, apontando as falhas.

O tempo de perder com o time passou.

Hoje vivemos a Era das Cornetas, o tempo do coitadismo, do torcedor que não participa dos vexames, que não entendeu que derrota forma caráter. Do torcedor que acha que tem direito a vencer sempre, que não aguenta meia derrota sem dar chilique. Que esses liguem para o SAC dos clubes EXIGINDO suas vitórias semanais, enquanto nós vamos torcendo e sofrendo, acumulando calados as mágoas que nos permitirão gozar de verdade de uma vitória que não temos idéia de quando virá

Por André Vidiz, do Sem Firula

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