Procura-se cobrador de falta

Se há um momento em que o tempo para no futebol, sem dúvida ele ocorre nos instantes que precedem a cobrança de uma falta. Alguns jogadores ao redor da pelota aguardam, com frieza, o formigueiro da barreira parar de incomodar o juiz. Às vezes, pipocam cartões. Ao fundo, na terceira dimensão do momento, o goleiro vive a amargura da berlinda. Joga psicologicamente com os potenciais batedores ao formar o paredão. Embora a técnica ensine as melhores práticas, o imponderável esconde-se atrás da moita da incerteza para entrar em ação.

O sibilar do apito determina: não há como retroceder, a menos que a barreira avance – mas aí tudo recomeça e uma hora terá de ser levado a cabo. O interminável trajeto entre o cobrador e a esfera inicia. Corre, olha, continua, chuta. A bola passa pela barreira em rotação ou feito pombo-sem-asa. Do ponto A ao B, é espalmada ou dorme feliz no fundo da rede. O destino escolhe. Enquanto isso, a barreira coreografa seu subir-descer desesperado, com seus integrantes a olhar para trás com um certo ar de culpa: deveríamos ter interceptado? Talvez. Nunca saberemos.

É, amigos: assim era uma cobrança de falta. O gramado, normalmente, era uma merda – o que potencializava a imprevisibilidade das coisas. Um morrinho ou buraco poderiam sacanear definitivamente a vida do goleiro. A bola era mais dura; as chuteiras, pretas e um pouco enlameadas pelo rarear da grama. Havia técnica. As corujas eram muito mais cautelosas ao tecerem seus ninhos no ângulo de metas privilegiadas como as do Mineirão, Maracanã, Pacaembu, Morumbi ou outros palcos. Sim, pelo simples fato de que alguém poderia alvejá-las em uma linda cobrança.

Zico, Nelinho, Célio Silva, Marcelinho Carioca, Rogério Ceni, Júnior, Djalminha, Juninho Pernambucano, Petkovic, Dicá, Neto, Rivellino, Didi, Branco, Roberto Dinamite: eles não precisavam de pose. Não olhavam para o telão. Catimbavam. E, principalmente, eram certeiros – cada um a seu modo. Caixa.

Hoje, quem dá medo nos adversários e frio na barriga em quem torce a favor? Que goleiro sente-se aterrorizado ao levar uma infração na boca da grande área? Vejam o Fluminense, por exemplo, que não marca um gol de falta há oito meses. E quem era o principal batedor do time? Conca – um argentino!

Que alguém possa resgatar esta maravilha de lance em algum lugar por estas bandas brasileiras. Do nosso jeito.

Amigos, aprendam com este módico exemplo:

#RIPFutebol

#RIPcobradordefalta

Por Rodolfo Araújo

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