Luxa: o pofexô que já foi gênio

Antes de trabalhar, assista ou ouça isso. Vai te fazer bem: 

Nova Iguaçu foi o berço de uma das últimas reservas morais do futebol brasileiro. Lateral-esquerdo de classe mediana, trilhou a maior parte da carreira no Flamengo, com passagens sábias pelo Colorado (as belezas do Sul são irresistíveis) e Estrela Solitária – onde o flanco canhoto e a ponta direita deveriam ser aposentados para sempre, diga-se. Que joguem com nove.

Mas, ao pendurar as chuteiras, em um solilóquio silencioso, sentiu que precisava de um projeto. Algo para que o sonho do futebol não cessasse ali, após uma contusão no joelho. Seria lugar-comum demais. No cabide à direita do par desgastado de calçados, vislumbrou um terno escuro, alinhado, coincidentemente do seu número. Dentro de um dos bolsos, uma mensagem: “agora, você tem um sobrenome”. Nascia, ali, Vanderlei Luxemburgo.

O despertar da nova vida daquele atleta começou com a ida à universidade, em que cursou Educação Física. O Campo Grande, do Rio de Janeiro, foi a primeira agremiação a abrir as portas para o mago dos gestos, palavrões, táticas, preleções motivacionais, gestão de vestiários estelares e, claro, projetos. Muitos deles.

Na década de 80, passou por times do Rio, Espírito Santo e Minas Gerais. Em jornadas de ousadia, aportou no Oriente Médio para levar sua nascente metodologia a clubes como Al-Ittihad e Al-Shabab. Sua primeira década como treinador construiu a base necessária para revolucionar a simpática Bragança Paulista, no interior de São Paulo. No alvinegro dos Chedid, comandando nomes geniais como Tiba, Marcelo Vaga-Lume, Gil Baiano e Mauro Silva, conquistou a Série B do Brasileirão de 1989 e venceu o Paulistão de 1990 ao bater o saudoso Novorizontino, treinado por Nelsinho Baptista.

Tamanho destaque levou Vanderlei ao clube do coração, Flamengo, em que não durou muito tempo. Embora tenha apostado em nomes como Paulo Nunes, Zinho, Nélio, Marcelinho Carioca e Djalminha, durou aproximadamente sete meses no cargo, de onde caiu após empatar com o modesto Itaperuna.

Nos dois anos seguintes, depois de testar os nervos ao treinar os rivais campineiros Guarani e Ponte Preta, decolou ao assumir o Palmeiras bicampeão paulista e brasileiro em 1993 e 94, além de arrematar um Rio-São Paulo. Dali em diante, colecionou polêmicas fiscais e futebolísticas, mas sempre foi absolvido pelos títulos em campo, os quais se tornaram uma doce rotina.

Responsável pela máquina palmeirense que ultrapassou os cem gols no Paulistão de 1996, deu o gosto de sua magia ao Santos e Corinthians antes de chegar à Seleção Brasileira, onde levantou a Copa América de 1999. Demitido pela CBF após a eliminação olímpica em 2000, voltou ao futebol paulista amealhar mais um estadual com o Corinthians, mas quase caiu no Brasileirão com o Palmeiras. Pulou fora de um barco fadado ao naufrágio.

Quase afogado, avistou uma boia azul no revolto mar brasileiro. Era o Cruzeiro dos pontos corridos, que arrebentou a boca do balão em 2003 com Alex, Gomes, Augusto Recife, Mota, entre outros símbolos celestes da época em que ainda se comia tropeiro no Mineirão. Como nunca gostou de rotina, voltou ao Santos e repetiu a dose: não havia graça alguma com ele no comando.

Entretanto, parte do projeto ainda não estava completa. A cartada final seria, claro, a ida ao futebol europeu.

No fim daquele ano, foi para o Real Madrid, em que estreou na réstia de um jogo interrompido previamente com o Real Sociedad. Luxemburgo trocou o terno pelo sobretudo, respirou fundo e bradou para Ronaldo, Roberto Carlos, Zidane e companhia: quien manda aqui soy yo. Não deu outra – aquecido devidamente pelo inseparável Antonio Mello, o esquadrão merengue adentrou o gramado e, com poucos minutos para tirar o 1 x 1 do placar, arrancou com o Fenômeno um pênalti tranquilamente convertido por Zidane. Primeiros minutos, primeira vitória.

Foi justamente ali que teve um dos melhores aproveitamentos da carreira – 67,4% – mas foi demitido após um ano por não chegar ao título da Liga Espanhola e, tampouco, da Liga dos Campeões. Mentira. Foi defenestrado por não ser um europeu, não dar treinamentos como um espartano e sorrir em entrevistas coletivas à guisa do parco espanhol. É, deve ter sido isso, mas não importa. Voltou ao Brasil e continuou vencendo uma ou outra taça, até experimentar um declínio do qual jamais se recuperou plenamente.

Polêmicas à parte, Luxemburgo criou um jeito de treinar. Nós táticos, ironias, pontos eletrônicos, gravata à beira do campo misturada com salivas de xingamentos e outras substâncias traçaram uma personalidade pra lá de fantástica. No mundo em que treinadores “se reciclam” e “tiram sabáticos”, é um belo exemplo de originalidade e autenticidade.

Luxa, você não precisa ganhar mais nada. PORRA!

Em sua homenagem, colecionamos alguns momentos épicos da sua existência:

Nasce uma estrela:

Lutando por seus direitos:

Deixando claro seu posicionamento ideológico:

Contra a ingratidão:

De quantos minutos você precisa para vencer?

#RIPTécnicodeverdade
#RIPFutebol

Por Rodolfo “Lex Luthor” Araújo

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