Carta aberta ao jovem jogador de condomínio

Caro amigo,

Você, que segura uma Brazuca debaixo do braço, esperando os amigos descerem para mais uma simulação de Champions League na asséptica quadra do seu condomínio: preste atenção.

Antes de tudo: não me leve a mal. Ser nostálgico não é necessariamente sofrer de saudosismo ou rejeitar o presente por algum dano psicológico. Neste caso é muito simples. Às vezes, precisamos de humildade para reconhecer que o agora não é, sempre, o melhor dos tempos. Por isso, olhar pelo retrovisor permite seguir adiante com um pouco mais de segurança na tortuosa estrada em que se perde o futebol.

Seu ídolo, seja ele Cristiano Ronaldo, Falcao García ou Benzema, não ENGRAXA A CHUTEIRA PRETA de um Edílson Capetinha, por exemplo. E não venha citar Bolas de Ouro, prêmios de revistas ou estatísticas de videogame. Falo aqui de jogador de verdade. Menos fotos, maquiagens e mais atitude. Caras que despertam a vontade de sentar numa mesa de bar e conversar horas a fio. Homens com história. Cá entre nós: o que você conversaria com o Cristiano Ronaldo? Falaria de calçados coloridos? Novos tecidos que a marca X vai lançar no próximo verão? Iates, piscinas de fundo infinito?

Futebol ainda é um esporte praticado na sujeira, na grama, com catimba e malandragem da boa. Sem violência ou desonestidade, é claro, mas com malícia, brincadeira, espírito livre e pedalada. O futebol, mesmo morto, tem espasmos com DOUGLAS, Emerson Sheik, Adriano e outros caras com sangue nos olhos.

Você já ouviu falar do Dener, por exemplo? Ele era franzino, liso feito bagre. A bola parecia ser maior que ele. Mas o cara tinha uma habilidade fora do comum, era um extraterrestre singrando as coitadas das zagas com uma molecagem linda de ver. Era da Lusa, foi do Grêmio e morreu no Vasco. Foi-se muito cedo. Se estivesse por aqui, daria umas palmadas de leve na sua bunda limpinha e superprotegida. É esse aqui:

Ou então do Romário. Não, ele não é senador. Fez mais de mil gols na carreira, carregou o Brasil nas costas no tetracampeonato da Seleção (quando tinha “s” maiúsculo) em 1994 e fez a alegria de muita gente. O gol abaixo pode ajudar a descrever:

Tem também o Mauro Galvão, um zagueiro que mais parecia um lorde inglês ao conduzir a bola. Era uma fineza no trato absurda, dava gosto de ver a bola cruzando a intermediária para repousar indefesa nos pés dele. Genial.

Renato Gaúcho, um atacante monumental. Emplacou um título intercontinental com o Grêmio e fez a festa no Rio de Janeiro em todos os sentidos, além de dar as caras em Minas Gerais e mostrar, no verbo, nas conquistas e no campo, o significado de “bola dentro”.

Poderia aqui listar milhões deles, mas nenhum precisava de Instagram ou uma estátua em museu de cera para se legitimar. Os caras não tinham medo de entrevista, falavam o que pensavam sem filtro. Curtiam a vida sem temor de serem julgados e davam muito resultado em campo. Tinham fé no taco e eram grandes pessoas, mesmo com uma pensão alimentícia esquecida aqui ou ali.

Quando você for para a escola, não aguente toda a zoeira de cabeça baixa. Mostre quem você é, faça alguma coisa diferente. Tente driblar a galera com um lance novo. Não se intimide. Em vez de ir na porrada, vá na arte, na ginga. Sabe o que é isso? Aí, na vida adulta, virão mais dezenas de zagueiros e volantes tentando arrancar um pedaço da sua canela nessa longa estrada da vida. Quer amarelar ou mostrar sua cara? CR7 ou Vampeta?

Cara, aprenda com estes e outros mitos que, aos poucos, enfileiraremos aqui no RIP. Todos eles têm um sorriso no canto da boca que guarda lá no fundo a certeza de que iriam vencer. E, de fato, ganharam – dentro e fora de campo, a simpatia do mundo e, claro, o RESPEITO.

romario

 

#RIPFutebol

Por Rodolfo “Lex Luthor” Araújo

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6 comentários sobre “Carta aberta ao jovem jogador de condomínio

  1. Mas vamos falar de um irlandês que também era o fino da bola e sem contar o que aprontava fora das quatro linhas…George Best,considerado até por Pelé como o melhor jogador de todos os tempos

    Curtido por 1 pessoa

  2. tenho profunda admiriração por todos e principalmente por aqueles q vi jogar ,hoje percebo q os nossa exência de jogar futebol se perdeu devido à vàrios fatores :Na sua formação ,no jeito mulequê e atrevido de jogar futebol ,nos campinhos de pelada q ñ existêm mais e principalmente o q todos q queriam ser jogador tinham 😮 sonho de vestir a amarelinha e honrar a camisa e hoje è vista como tranpolim e tomar de 7 è normal ,infelismente como diz na carta e quêm è boleiro sabe q esses comentàristas e essa merchandagem aumentam o zoom dez vezes mais daquilo q à nós q sabemos o q è futebol ñ engraxaria a chuteira dos nossos craquês do passado.

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