Saudades da preta, preta, pretinha

por Rodolfo “Lex Luthor” Araújo

adidas-1961

No fim do século XIX, elas pareciam botas. O formato rústico e a coloração marrom, somados às travas de madeira, identificavam pelos pés um jogador de futebol.

Na década de 1930, a cor preta e um material mais leve desenvolvido pelos alemães mostrava as primeiras características do modelo clássico deste calçado, ainda que o cano ficasse ligeiramente acima da linha do tornozelo.

Foi nos anos 1950 que um formato semelhante ao atual se consagrou, evoluindo sistematicamente no desenho e tipo de revestimento. E, naquela época, não havia melhor atleta para testá-las que o Rei.

Com Pelé e as chuteiras negras, o futebol se consagrou.

E assim a sapatilha dos bailarinos-boleiros progrediu até meados dos anos 1990, quando surgiram as chuteiras coloridas. Com elas, uma profusão de cores marca-texto subiram aos gramados de todo o mundo  (veja esse triste infográfico do GloboEsporte) – incluídos os sintéticos das quadras e condomínios – para demarcar o “estilo” dos jogadores.

Sim: estilo não de jogo, mas de vestimenta. A fosforescência dos calçados anunciava a idade das trevas na qual o futebol haveria de mergulhar.

Ora, pois o preto da chuteira não ofuscava a cor da camisa. E representava a discrição das partes mais hábeis (teoricamente) dos atletas de futebol. A atenção direcionava-se ao todo: a cabeça erguida; o tronco levemente inclinado para frente como uma bússola na direção do gol; as pernas ritmadas e sedentas pelo drible para, só então, chegarmos aos pés – gatilhos certeiros para o fundo das redes. Era tudo mais uniforme, e belo.

Futebol é de cima para baixo, não de baixo pra cima.

Hoje, as chuteiras-escavadeiras arrancam pedaços de gramas mal-plantadas nas “arenas”, maltratam a paisagem em carrinhos desgovernados, espancam a saudade, ofuscam os mantos sagrados, dão um bico na arte – e no ator.

Driblar bem para quê, se o cara sabe desfilar pela linha lateral o mais novo modelo pé esquerdo azul/pé direito rosa? O que importa é ser patrocinado pela marca mais espalhafatosa. É se exibir. Olha essa visão do inferno:

Juniores de Flamengo e Corinthians na Copinha. Moleques!!!

Se o futebol ainda há de ressuscitar, o primeiro passo é recolocar os pés no chão.

#RIP

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2 comentários sobre “Saudades da preta, preta, pretinha

  1. fui no jogo da copa São Paulo sexta passada, juventude x atlético Paranaense é de lastimar!

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