Entrevista: jogador brasileiro na Lituânia conta como é jogar sem frescura

“No começo, achei que a fórmula dos pontos corridos era a mais justa. Mas acho que, até por morar no Brasil na época, não considerei que a nossa natureza é bem diferente da europeia. O brasileiro é passional em relação ao futebol, não é cientifico.”

O RIP FC tem como objetivo não só rememorar os grandes momentos de quando o futebol era vivo, mas também investigar o porquê de este esporte tão popular ter acabado. Nossa primeira entrevista sobre o assunto, portanto, não é com um jogador de futebol qualquer.

Ele é da época em que esse esporte existia, e joga hoje em um microcosmo distante do que um dia foi o futebol. Lá, nos estádios por onde desfila seu talento, os torcedores usam bandeiras, sinalizadores e cantam músicas. Ele, por sua vez, faz os olhos de seus torcedores transbordarem de satisfação pelas trivelas, viradas de jogo, chapéus e outros momentos de rara beleza.

Armando Tarlazis Vieira dos Santos cumpre diversos requisitos que despertaram nossa atenção. À revelia do comprido nome, é conhecido como Mandinho. Não conhecemos craques de verdade com nome e sobrenome. É nome, nome e apelido ou somente o apelido.

Mandinho, ao contrário do que retrataria qualquer programa esportivo, não é “mais um brasileiro a buscar um lugar ao sol na Europa”. Aos 30 anos, o meio-campista acabou de encerrar seu ciclo no multicampeão lituano FK Ekranas e espera definir seu futuro em fevereiro.

Aberto a propostas de equipes brasileiras (alô, Alexandre Mattos!), Mandinho constituiu família do outro lado do Atlântico, morre de saudade dos parentes e do futebol de verdade. Canhoto de rara classe, escolheu a perna esquerda para fincar nos solos do mundo a sua ideologia. Discípulo de Telê e Raí, não pende à direita nas opiniões. Sabe claramente onde o futebol brasileiro morreu e o que precisa fazer para, quem sabe, ressuscitar.

Com vocês, Mandinho dos Santos:

RIP F.C.: Em quais países você jogou ao longo da carreira?

Mandinho: Passei por alguns clubes do Brasil antes de vir à Europa – inclusive tive uma passagem pelo Palmeiras B. Joguei dois anos na Dinamarca, um na Estônia, onde tive a oportunidade de jogar uma Copa da UEFA [atual Liga Europa], outro ano em Malta e por volta de cinco temporadas na Lituânia. Considero que em todos os lugares tive alguma forma de sucesso. Viver e jogar na Dinamarca por dois anos foi uma experiência fantástica. Me fez crescer muito como ser humano e como profissional. Na Lituânia, conheci a minha esposa e construí a minha família. Também tive dois anos maravilhosos pelo lado familiar em um clube chamado FK Banga. Em 2014 realizei o sonho de jogar em um clube que foi seis vezes seguidas campeão lituano, o FK Ekranas. Na Estônia conseguimos a classificação para a Liga Europa de uma forma muito especial, tendo uma série de quase 20 jogos sem perder e, em um ano, perdemos apenas três jogos da liga estoniana. Em todos os lugares pelos quais passei considero que fui feliz e tive sucesso.

RIP F.C.: Como se tornou jogador profissional?

Mandinho: Foi fruto de muito trabalho e sacrifício. A competição é enorme e por vezes desleal, por isso sempre tive que trabalhar muito para atingir as metas por menores que fossem. Também tive que conciliar os estudos [Mandinho cursou o primeiro ano de direito] com os treinos, por exigência do meu pai, até o momento em que se tornou impossível. Naquele instante, tomei uma decisão sobre qual caminho seguir.

RIP F.C.: Como foi parar na Europa?

Mandinho: Quando eu era pequeno, o primo dinamarquês do meu tio foi visitá-lo no Brasil e me viu jogando. Ele trabalhava no Brondby IF e me convidou para ir até lá. Pelos estudos e até por ignorância minha, já que naquela época não existia YouTube ou qualquer site onde eu pudesse acompanhar o campeonato dinamarquês, acabei ficando. Quando completei 21 anos, conversei com esse meu tio e entramos em contato de novo com o primo dele, que viabilizou tudo por lá. Fiquei por dois anos sob os cuidados dele e da família, que hoje amo como se fosse a minha.

RIP F.C.: E o processo de adaptação? O jeito de jogar bola não é diferente?

Mandinho: Tive sorte de ir primeiro à Dinamarca. É um país que realmente se esforça em integrar os estrangeiros à sociedade local. O frio, comparado com os países em que eu moraria depois, também era mais ameno. Quanto ao estilo de jogo, a diferença para o Brasil é imensa. Tive que evoluir muito na parte física e tática. Às vezes o jogador brasileiro sai do país com uma certa arrogância de ser pentacampeão mundial e ir para um lugar sem a mesma tradição no futebol. Mas é muito importante ter a mente aberta, para se adaptar e mostrar as suas qualidades. Na Lituânia e Estônia, o futebol é ainda mais disciplinado e físico que na Dinamarca. Já em Malta há uma semelhança maior com o ritmo brasileiro, até pelo calor e uma grande presença de atletas do nosso país por lá.

RIP F.C.: Torce para algum time no Brasil? Tem saudade do futebol brasileiro? 

Mandinho: Hoje eu torço pelo futebol bem jogado. Assisto no YouTube aos jogos do São Paulo do mestre Telê Santana, da seleção de 82 comandada por ele, do Palmeiras dos mais de 100 gols do Campeonato Paulista, do Corinthians do Marcelinho, Ricardinho, Rincón e Vampeta, Flamengo do Zico, Cruzeiro do Alex, entre outros times. Sobre o futebol brasileiro, penso que ainda é maravilhoso. Formamos jogadores como em nenhum lugar no mundo, E somos um pais apaixonado pelo esporte. Isso conta muito e espero que nunca mude. Mas acho que, por diversos motivos, o futebol brasileiro passa por um momento dificil, com resultados abaixo do esperado nas ultimas Copas do Mundo e estádios vazios. Poderia citar os jogadores, treinadores, diretores, torcida ou mídia em particular, mas todos têm sua parcela de “culpa”. O que mais me impressiona é que a grande maioria dos melhores atletas com quem joguei junto na base, ou mesmo na minha infância, não se tornaram profissionais ou tiveram uma carreira curta. O mesmo acontece com grandes treinadores que conheci e jamais tiveram uma real oportunidade de implantar a sua forma de trabalho em um clube. Acho que isso ilustra quanto talento o Brasil perde todos os anos.

Mandinho1RIP F.C.: Conte a ocasião que te fez se apaixonar por futebol.

Mandinho: Quando era criança havia uma disputa familiar para me fazer ser santista ou são-paulino. Um dia meu pai me levou a um São Paulo x Corinthians. Não conseguimos ingressos e, para diminuir a minha decepção, ele falou para esperarmos o ônibus do São Paulo chegar ao estádio para vermos os jogadores de perto. Quando chegaram, o Raí acabou parando para dar autógrafos. Eu nem tinha papel ou caneta e ele perguntou se eu iria ver o jogo. Disse que não, porque estava sem ingressos. Ele me deu um convite e pediu ao Catê [ex-ponta do São Paulo, falecido em 2011] para dar as entradas ao meu pai. O jogo foi 2 a 0, um gol do Raí e uma pintura do Palhinha, que driblou de letra o zagueiro do Corinthians – acho que era o Henrique [grande Queixada]. Eu já era um grande apaixonado por aquele time do São Paulo. É o melhor que já vi jogar. Naquele dia eu realmente virei tricolor.

RIP F.C.: Você diz que tem saudade do “futebol de verdade”. Ainda há resquícios dele na Lituânia? Quais são?

Mandinho: Eu acho que o futebol se tornou uma coisa muito burocrática e hipócrita. Muita coisa que realmente fazia o futebol apaixonante foi abolida. Eu sou absolutamente contra violência ou qualquer atitude do gênero. Mas acho que muita coisa é frescura e transforma o espetáculo, que supostamente deveria passar emoção e paixão, em uma visita ao museu. O que fizeram com o Maracanã, na minha opinião, é um crime. Aqui ainda há algumas coisas que me lembram do futebol que eu cresci amando. Aqui há um contato maior entre a torcida e os jogadores. Até por não sermos famosos ou celebridades, não somos expostos de forma exagerada. Acho que o futebol sente falta de jogadores com personalidade própria, que falavam por si e eram, naturalmente, polêmicos. Edmundo, Renato Gaúcho, Romário, Marcelinho Carioca, Edílson, Vampeta, Denílson e o goleiro Ronaldo são alguns deles. Não que eu concorde com a atitude de todos eles, mas acho que eram autênticos, faziam as pessoas quererem ver os jogos tanto pelo que faziam em campo, mas também pelo lado pessoal. Isso aumentava a rivalidade e, consequentemente, o interesse. Hoje as perguntas e respostas são quase sempre as mesmas. O estafe dos jogadores de ponta já os prepara para responder de uma forma que agrade a opinião publica. Há pouquíssimos jogadores autênticos. Não tenho nem certeza que os polêmicos de hoje são assim mesmo ou o fazem apenas por publicidade. Não é uma crítica aos jogadores, porque isso se tornou uma necessidade. Qualquer declaração é usada para criar tumulto.

RIP F.C.: Qual a temperatura você enfrenta no inverno? E no verão? Tem frescura de parar o jogo no meio pra refrescar ou esquentar?

Mandinho: No inverno enfrentei -25C, talvez ate um pouco mais frio. No verão faz sol. Chega aos 26, 27 graus. Vamos para a praia, como iriamos no Brasil. Nunca tive parada técnica ou coisa do gênero. No último jogo de 2014 jogamos com -9 graus e foi bem difícil. O campo estava congelado, mas fomos até o fim. Temos umas roupas especiais, luvas, tomamos chá e no banco de reservas usamos cobertores. Mas o jogo acontece como se fosse em temperatura normal.

Torcida2RIP F.C.: Quão apaixonada é sua torcida? A galera tem música boa? Podem levar sinalizador e bandeiras pro estádio?

Mandinho: O primeiro esporte do pais é o basquete. Por isso, nem sempre temos estádios com bom púlblico, mas as pessoas que torcem para o futebol aqui são bem apaixonadas e levam bem a sério. Eu tive a oportunidade de jogar em times de cidades “do futebol” e foi uma experiência muito agradável. Tenho muito carinho pela torcida dos clubes em que passei, principalmente dos dois últimos clubes nos quais joguei aqui na Lituânia (FK Banga e FK Ekranas). São duas torcidas que sempre vão morar no meu coração por vários motivos.

Sim, há sinalizadores, bandeiras e músicas de cada torcida. Dificilmente acontece algum problema mais sério com os torcedores. Minha família costuma ir aos meus jogos sem qualquer problema de segurança.

RIP F.C.: Do que você mais tem saudade do futebol antigo? Narradores? Patrocinadores? Torcida?

Mandinho: Sinto falta das finais do Campeonato Brasileiro. No começo, achei que a fórmula dos pontos corridos era a mais justa. Mas acho que, até por morar no Brasil na época, não considerei que a nossa natureza é bem diferente da europeia. O brasileiro é passional em relação ao futebol, não é cientifico. Disso eu sinto muita falta. Hoje fico esperando os playoffs da NBA. É mais ou menos a minha forma de substituir como eu me sentia em relação ao futebol brasileiro. Como vocês bem disseram no site, o futebol morreu no Corinthians x Santos de 2002. Mas ainda bem que foi naquele jogo. Se fosse um ano antes, talvez Robinho e Diego seriam apenas dois jovens jogadores que terminaram em oitavo lugar pelo Santos no campeonato de pontos corridos. Mas quantos Robinhos e Diegos passaram sem serem notados nesses anos todos?

RIP F.C.: Se pudesse mudar uma coisa no futebol: o que seria?

Mandinho: O resultado de Brasil x Itália na Copa de 1982. Eu não vivi esse momento ao vivo, mas acho que todo brasileiro sofre até hoje as consequências dessa derrota.

 

Nota da Redação: depois do fim do futebol, em 2002, o Brasil nunca mais foi campeão mundial.

Nota da Redação 2: se você for o Alexandre Mattos e quiser contratá-lo, o Mandinho hoje é jogador da Elite Squad. E as fotos dele foram (bem) tiradas pelo Arunas Kisielius.

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